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sábado, 4 de outubro de 2014

Entre o céu e a terra


Há quatro anos trabalho como professor de Artes Visuais para o Ensino Médio e desde a metade desse percurso mostro para meus alunos o documentário “Exit through the gift shop”, de 2010, dirigido pelo famigerado Banksy. Como era de se esperar de um filme dirigido por um artista como este, se trata de uma narrativa que perpassa por um grupo de artistas que fazem intervenções nas ruas pelo mundo. Feito com artistas já famosos nos anos 90, esse filme é importante para se fazer refletir sobre o lugar atual desses artistas e, claro, seu lugar em um mercado de arte onde essa produção de imagens é adequada ao cubo branco. A reação dos alunos costuma ser das melhores; parece que a linguagem disso que se convencionou chamar de “street art” – ou para trazer outro termo muito utilizado no Brasil, “intervenção urbana” – se aproxima de suas inquietações enquanto adolescentes.

Criar ruídos na visualidade pública que inquietam os transeuntes aleatórios perante pôsteres, adesivos e stencils são ações que parecem reunir irreverência e impacto visual. Mesmo quando permeadas por um discurso político, algumas dessas imagens roçam um dadaísmo que me parece ir de encontro a um tipo de humor que vejo nos meus alunos e o qual também praticava durante minha adolescência. Trata-se de um lugar do nonsense em que a desconexão de imagens ganha sentido devido à vontade de fazer frente a anos de aulas que mais domesticam do que estimulam o pensamento crítico.

Para além das ideias de legalidade e vandalismo presentes nos entre o graffiti e a pichação, interessa estar na posição de um olhar crítico perante o mundo. Trata-se de uma atitude que me lembra um colega de classe desse período. A cada novo conteúdo apresentado por um professor, ele levantava o dedo dizia “ou não”. Esse lugar da dúvida, em alguns momentos de uma pertinência sutil, me parece ir de encontro com algumas das inquietações de que Tales Bedeschi apresenta como artista e, mais do que isso, como indivíduo. Pensa-se na sua trajetória que a arte é capaz de colocar a apreciação automatizada do mundo em xeque.




Em “espaço (‘céu’) e tempo (‘antes’)”, o artista apresentou trabalhos dentro da galeria do SESI, em Curitiba, mas que dizem respeito a apreensões do mundo lá de fora. Não me parece potente fazer aqui uma distinção entre cidade e natureza, mas talvez englobá-los no termo paisagem. Não pensemos essa palavra por um viés naturalista (no sentido atribuído pela ciência no século XVIII) e por vezes utilizado de modo ingênuo no que diz respeito à arte contemporânea. Paisagem aqui, segundo a perspectiva de Tales, me parece dizer respeito tanto à selva de concreto, quanto à apreciação do céu, essa vastidão que nos coroa diariamente. É o espaço tanto dos prédios que arranham esse grande bloco azul sobre as nossas cabeças, quanto daquelas árvores que propõem o contraste com suas folhas verdes.

A intervenção direta sobre a materialidade da cidade é o que move o artista a realizar “Hachuras em movimento”, da série “Linha curva da terra”. Como o título aponta, aqui lidamos com as hachuras, ou seja, os rabiscos, os traços em movimento sobre esse caráter curvilíneo e instável da Terra. Olhando para o trabalho, as mãos do artista imprimem linhas sobre as sombras projetadas por uma grade de viaduto que corta a cidade de Belo Horizonte. Do mesmo modo que esses novos desenhos são marcados na terra, no asfalto, o viaduto também sugere ritmos ao espaço público através de suas elevações. A ação do sol no céu (um dos espaços que direcionava a exposição) e sua relação com o tempo fazem com que essas formas gravadas no chão sejam um registro da sombra presente antes. Aqueles que não estavam trancados em seus carros e caminhavam pelo viaduto a pé tinham, então, a oportunidade de olhar para baixo e se depararem com algo diferente; é esse convite à sensibilização do olhar, o encontro com aquilo que foge à explicação imediata e ativa o coeficiente artístico, que interessa ao artista.




Além daqueles que estavam na rua, é importante também dar a oportunidade de fruição às pessoas que, por exemplo, estavam em Curitiba, visitaram a exposição e contemplaram esta ação através da fotografia. A estranheza permanece, já que não se tem de modo pronto uma resposta para a nova grade formada entre sombra e intervenção. As naturezas das ações se misturam e a impressão fotográfica, o tradicional documento de um acontecimento, convida para a ficção. Creio que esse convite para que o público se aproxime das imagens e mantenha o seu olhar atento se estende a toda a exposição. Mais do que isso, esse fluxo entre a rua e a galeria, onde o artista mostrou suas obras sobre a superfície do papel, é o que reúne essas nuances de reflexões sobre a paisagem.

Algumas de suas séries em serigrafia e xilogravura que versam sobre o céu estavam reunidas em uma parede presas somente com grampos nos lados superiores. O papel se movimentava e mudava a sua forma do mesmo modo que as nuvens nunca se apresentam iguais. Os entalhes da madeira são proporcionais ao seu encontro com os buris. Estes, mesmo nas mãos mais treinadas, oferecem surpresas e criam linhas que nunca irão de encontro literal ao que foi projetado mentalmente. O mesmo se pode dizer das impressões serigráficas onde as retículas são programadas, mas nem sempre dominadas. O céu, o elemento que estimulou essas imagens, é tão indomável quanto essa técnica que pretende reproduzir imagens em série, mas que, assim como tudo que é humano, é suscetível à incapacidade do duplo idêntico. Uma linha a mais, um ponto a menos, um por cento de cor que se difira – talvez as nuances escapem ao olho humano, mas, assim como a paisagem, essas técnicas também têm suas instabilidades.




Tales Bedeschi possui uma relação existencial com a gravura e, como todo bom aficionado, conhece o seu território movediço. Seja nesses trabalhos em que lida com a técnica em sua linguagem mais tradicional, ou quando pensa em seu “campo ampliado”, as incertezas vem à tona. Em “Águas do espelho sob guarda-chuva em 30 poses”, o fotógrafo se colocou perante um recorte da paisagem ao seu redor. No lugar de imprimir uma grande imagem fotográfica em que fosse clara a narrativa à sua frente, prefere optar por usar a lente como meio de exploração do espaço. Cada fotografia, então, assim como um azulejo de um mosaico, se faz presente para permitir que tenhamos um vestígio daquilo que foi dado. A certeza é impossível; essa conclusão formal só será feita em nossas imaginações e, novamente, a imagem é evocada para que duvidemos dela mesma.

Brincando com o nome da cidade, poderíamos dizer que no trabalho do belorizontino se pode enxergar a beleza do horizonte, mas essa não vem moldurada, embalada e pronta para consumo. São imagens que advém de linguagens visuais que possuem um longo trajeto, mas que fascinam justamente por permitir o campo da dúvida. Talvez, mais do que isso, o trabalho possua essa inquietude por nascer não de uma resposta meramente formal, mas do diálogo entre um homem e a paisagem, entre dois olhos e os ambientes.




Cabe ao homem, aquele que um dia ergueu pirâmides e que até hoje conversa com divindades celestes, transformar paisagem em imagem e, por consequência, em monumento – seja através de pinceladas que estão na altura de nossos pés, seja se utilizando dos quatro cantos do papel mostrado na altura dos nossos olhos. Entre a rua e o museu, entre o céu e a terra, Tales Bedeschi explora seus blocos de madeira e deixa o tempo encontrar a sua experiência.

(texto escrito originalmente para o catálogo do projeto Sesi Arte Contemporânea 2013, relativo à exposição "espaço ('céu') e tempo ('antes')", de Tales Bedeschi, realizada entre os dias 12 de novembro de 2013 a 19 de janeiro de 2014)

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