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sábado, 18 de outubro de 2014

Água mole, pedra dura




Haverá alguma coisa mais dura que a pedra e mais mole que a água? Todavia a água mole em rocha dura tanto bate até que fura. Se fores persistente, conquistarás a própria Penélope.

Com essas palavras, Ovídio, escritor romano, segue a definir a sua “Arte de amar” terminada entre os anos I a.C. e I d.C. Para minha surpresa, o famoso provérbio que por tantos anos julguei ser algo próprio do Brasil, tinha origem no berço da chamada tradição clássica. Um elogio à insistência, “água mole em pedra dura” diz respeito à perseverança que o amante deve ter para conquistar a outra pessoa que deseja. Trazendo essa frase para um contexto brasileiro, se trata de uma afirmação por algumas vezes tida como um monumento ao ato de seguirmos na busca por alguma coisa. Como escrevia o artista Hélio Oiticica, em 1967, "da adversidade vivemos”, ou seja, os percalços estão todos ao nosso redor, mas ainda perseveramos, tentamos contorná-los e algumas pessoas ainda conseguem fazer graça com tudo aquilo que é adverso.

Quando fui convidado para assinar a curadoria da I Bienal do Barro, desejei uma exposição que apenas poderia acontecer na cidade de Caruaru. Após visitar a cidade, do Alto do Moura à Fábrica Caroá, e pesquisar sobre sua História recente e seu estado atual, algumas palavras-chave surgiram como norteadoras desse projeto curatorial.




O barro, como o próprio nome do evento indica, não poderia ser deixado de lado. Seja ele enquanto matéria bruta, advindo diretamente do solo e depois moldado pela mão humana, seja ele enquanto possibilidade da cerâmica que fez Caruaru se tornar num pólo de produção importante e famoso por figuras como Mestre Galdino e Mestre Vitalino; aqui ele está novamente presente e recodificado por mãos que se apropriam de diferentes modos de sua potência.

Essa lembrança do barro deixa perguntas difíceis de serem respondidas, mas essenciais para essa curadoria: qual o lugar desses mestres artesãos na contemporaneidade? De que modo sua projeção como ícones nacionais deixam marcas incontornáveis para Caruaru? Muito se usa o termo “arte popular” para se referir a essa produção não só de Caruaru, mas de um grande número de cidades do Brasil em que o fazer artesanal seria transmitido por um viés quase hereditário. Mas quais os agentes que institucionalizam essa produção por essa perspectiva? Até que ponto, em 2014, ainda seria válido abordar uma produção de imagens como “popular” quando mídias como a internet e as redes sociais recodificam e viralizam imagens de todo o formato e todas as geografias em poucos minutos?




Pensar essa exposição para um espaço monumental como a Fábrica Caroá endossa essas últimas perguntas: qual o lugar do industrial em Caruaru? É no mínimo interessante constatar a importância dessa fábrica, rico pólo industrial não só localmente, mas em todo o Brasil durante a primeira metade do século XX. Quem diria que antes da cerâmica popular despontar como traço identitário da cidade, a mesma tinha como ícone uma fábrica e suas máquinas que desfibrilavam a planta caroá através de um grande número de trabalhadores que tinham seus corpos repletos da poeira que ocupava o espaço? Poderíamos chamar essa fábrica de potência popular devido à massiva presença dos agora anônimos trabalhadores? Quais indícios seriam capazes de recontar parte das histórias dessas vidas?

“Água mole, pedra dura”, então, recodifica a fala de Ovídio para se pensar o caráter maleável do fazer com o barro e do uso de algumas palavras para se referir a modos de produção (industrial e/ou popular) que após décadas de repetições de discursos, se tornaram nomes próprios que talvez mais engessem a vivência cotidiana do que abram espaço para a reflexão. Por outro lado, como lidar também com o conceito de “erudito”, muito usado na abordagem da arte contemporânea, quando esta há muitas décadas já se utiliza de objetos industriais e do consumo em massa? Há espaço para a discussão contemporânea de arte que fuja dos muros da academia e que coloque o espectador e seus juízos nos holofotes? Tendo isso em mente, é importante nesse projeto expositivo reunir trabalhos de artistas que colocam esses limites entre culturas em cheque.




Por fim, esse projeto quer trazer à tona a segunda parte dessa frase aqui não explicitada, ou seja, o “tanto bate até que fura”. Cremos que esse projeto pode se relacionar com a ideia de resistência cultural em dois sentidos. No primeiro deles, é inevitável a lembrança de que a produção artesanal do Alto do Moura sofre das mais diversas adversidades – seja no que diz respeito à estrutura básica de moradia e, por exemplo, saneamento básico desse bairro, como da produção em escala quase industrial e cansativa feitas pelas famílias que lá habitam. Num segundo olhar, pensamos que realizar uma exposição de arte contemporânea em uma cidade onde o peso da “arte popular” é muito forte, se trata também de uma operação de pensar numa resistência e insistência cultural afim de que os habitantes da cidade tenham acesso a uma diversidade de expressões artísticas. 

Mais do que implantar à força uma forma de produção de imagens, essa exposição se trata de um convite para que Caruaru, os artistas aqui convidados e os visitantes da cidade, pensem sobre a possibilidade de se criar imagens e reflexões através de diferentes pontos de vista. Gostaríamos de abrir a possibilidade para que existam outras formações do olhar para diversas gerações sempre respeitando e refletindo sobre as tradições locais.

De origens, formações e gerações distintas, os dezesseis artistas participantes desse projeto não tem a intenção de ilustrar parte da História de Caruaru, mas sim pensar de que modo os acontecimentos e questões percebidos na formação da cidade atualmente podem dialogar com suas próprias trajetórias e interesses como artistas visuais. Trata-se de uma via de mão dupla entre o observar um espaço novo e se manter fiel às suas convicções existenciais enquanto indivíduo responsável eticamente por problematizar o mundo através da imagem.





Que essa primeira edição do evento seja capaz de, mais do que apenas furar a pedra dura, começar a abrir um rio onde, no futuro, um maior número sempre diverso de pessoas possa enfiar seus pés e levar para casa, para sua memória, um diferente pedaço de barro.

(texto curatorial da exposição "Água mole, pedra dura", a I Bienal do Barro realizada em Caruaru, entre 12 de abril e 19 de maio de 2014)

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