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quinta-feira, 21 de agosto de 2014

O sonho


“O sonho da casa própria”, uma frase que atravessa a cultura brasileira recente por diversas portas – nos programas televisivos que transformam a problemática da moradia no Brasil em espetáculo, nas estatísticas de jornal que pululam a cada proximidade das eleições presidenciais ou, mais próximo da experiência dos subúrbios do Rio de Janeiro, na boca dos chefes de família. Na dúvida da latência desse sonho em 2014, encontro uma publicação sobre uma senhora que aos cem anos de idade teria, finalmente, devido a um sorteio do governo federal, ganhado uma casa para chamar de sua.

Nessa exposição individual de Jonas Arrabal há, como seu título anuncia, o desdobrar de uma história próxima ao mito fundador do primeiro grupo ao qual um indivíduo está inserido: a família. A mola propulsora dos trabalhos reunidos é autobiográfica e fala sobre uma “fundação” possível através de outra concepção da palavra que diz respeito ao ato de se erguer uma construção. Enquanto a estrutura familiar, mesmo se assimétrica, já existe anteriormente ao nosso nascimento, o edifício que abrigaria a família Arrabal Aragutti se tratava de um projeto.


O terreno comprado pelo patriarca, porém, fracassa no que diz respeito à sua verticalidade. Instabilidades econômicas no Brasil, invasões à privacidade desse espaço em obras e, por fim, os acasos do passar do tempo contribuem com o sumiço daquilo que só havia aparecido nos sonhos desse grupo de pessoas. Essa casa própria, portanto, nasce das cinzas e a elas é fadada.

Ficou o convite, porém, à contemplação desses fatos por outra perspectiva. A planta-baixa sobreviveu à passagem do tempo; o projeto dessa casa, ao menos enquanto desenho, ainda estimula o arquiteto que nos habita. Mais do que um pedaço de papel, o corpo do espectador é convidado a circundar uma projeção dessa planta no espaço do CCJF. Jonas Arrabal propõe, então, um encontro entre duas moradias: a que marcou a sua infância enquanto ideia e uma daquelas que ele anseia habitar na sua profissão de artista.

Não só de paredes e teto é feito um lar, mas também do espaço que o circunda. Munido de uma câmera de vídeo, então, o artista se colocou a documentar os terrenos baldios na região onde sua família ergueria a casa. Qual seria exatamente aquele espaço um dia possuído? A grama tomou conta desse terreno ou um cavalo pousou ali e se alimenta dia-após-dia? Alguém colocou uma cerca em seu entorno para proteger esse vazio arquitetônico que perdura ou seria o vizinho que teme que alguém use esse espaço como trampolim para adentrar a sua fortaleza?


Muitas são as possibilidades de leitura aqui e como escreveu o próprio artista no texto que acompanha o vídeo “mas tudo era um sonho, nada disso tem importância”. Se o “sonho da casa própria” ainda habita a nossa imaginação, poderíamos dizer que, enquanto isso, Jonas Arrabal conseguiu inverter a ordem dessas palavras e transformar em imagemtexto o seu próprio sonho da casa.

Mais do que a certeza de que essa casa existirá como acontecimento artístico por algumas semanas, fica a admiração de ver que os personagens principais dessa história, os Arrabal Aragutti, seguem juntos como tronco familiar. Mais importante do que estruturas de tijolo pintadas de branco (seja casa, seja museu) é o amor que funda uma família ou uma amizade.

É essa potência, também capaz de estimular um indivíduo a recodifica-la em linguagem artística, que nos leva a crer que nossos anseios materiais efetivamente não tem muita importância e que o sonho está, felizmente, longe de acabar.


(texto curatorial da exposição "A fundação", de Jonas Arrabal, realizada no Centro Cultural da Justiça Federal, no Rio de Janeiro, entre os dias 25 de julho a 31 de agosto)

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Romy Pocztaruk


Após pesquisar sobre o trabalho de Romy Pocztaruk, seria possível nos guiarmos por uma palavra: História. As narrativas que podemos encontrar nos seus trabalhos dizem respeito a uma amplitude geográfica – Nova Iorque, Berlim e Inglaterra ladeiam sua busca pelas ruínas da Transamazônica e de Fordlândia. A fotografia é uma das linguagens mais presentes na sua produção e proporciona ao espectador, como diria Jacques Le Goff, documentos/monumentos. A artista anseia por transformar em imagem técnica recortes da paisagem atualmente devastada pela ação do homem. Os progressos prometidos pelas expressões de uma ideia de modernidade ao redor do globo se verteram em uma ferrugem desordenada e esta pode ser encontrada especialmente nos projetos arquitetônicos e urbanísticos que prometiam a expansão territorial do homem. A pesquisa de Romy, portanto, em contraste com declarações curatoriais da Bienal a respeito da importância do “desvanecimento do moderno”, nos possibilita enxergar uma recodificação potente da modernidade em uma perspectiva global capaz de colocar História e imagem em um jogo de espelhos.


(texto publicado originalmente na edição de agosto da Revista Dasartes)