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segunda-feira, 23 de junho de 2014

“Sou diplomado em matéria de sofrer”


A exposição de Nuno Ramos na Caixa Cultural do Rio de Janeiro, tinha como estopim a referência para qual seu próprio título aponta, ou seja, a canção “Hora da razão”, composta e interpretada por Batatinha e lançada em 1976. O musicista se tornou mais conhecido devido a regravações de composições suas feitas nessa mesma década que possibilitaram, por exemplo, que o artista tenha escutado essa canção pela voz de Caetano Veloso.

Mas sobre o que versam essas palavras cantadas? “Sofrer também é merecimento / cada um tem seu momento / quando a hora é da razão”, diz a voz calma de Batatinha. As ideias de sofrimento e de razão são conjugadas e se tornam parte de um mesmo tronco; o sofrer não é visto como um torpor do ânimo jogado numa perspectiva romântica da existência. Sofrer pode ser um ato quase meditativo capaz de ser recodificado em versos que se repetem e são acompanhados de um violão lento e espaçado. Como Nuno Ramos pontua, “Mais do que propriamente tristes, são obras sobre a tristeza, sem que se perca com isso a concretude de cada canção”.

Essa materialidade que a repetição traz na voz de Batatinha, me parece também ser abordada nas esculturas propostas pelo artista de São Paulo. Estruturas de vidro são justapostas ao latão, o aço inox e o cobre, criando espaços que se assemelham a edifícios transparentes que protegem três monitores. Sobre elas escorre o breu, material que aparece em outros trabalhos de Nuno Ramos e que é extraído das árvores. Ao escorrer sobre as três estruturas presentes no espaço expositivo e contribuindo com a lenta distorção da transparência desses aquários, poderíamos interpretá-lo, também como sugerido pelo artista, como um segundo “choro negro”, nome de um trabalho seu apresentado em 2004. O público é convidado a compartilhar dessa dor lenta e que seria capaz de escorrer pela sala por um tempo certamente superior ao período de visitação da exposição.



Enquanto isso, essas redomas são transformadas em caixas acústicas através de três diferentes vozes que se mostram ao público portando um violão e cantarolam por um período longo a “Hora da razão”. Eduardo Climachauska (artista visual e também compositor, tal qual Nuno Ramos) e dois expoentes da chamada “nova música popular brasileira” dão seus tons diversos à composição – ao mesmo modo que Ramos, Caetano, dentre outros o fizeram. Batatinha cantava que “alguém vai sambar comigo / mas o nome não digo / guardo tudo no coração”. Ao ouvirmos esses versos em momentos diferentes, mas na simultaneidade do espaço, temos a certeza de que não necessariamente lidamos com essa música na primeira pessoa do singular, mas também na terceira pessoa.

Não podemos esquecer também daquelas imagens que criavam uma linearidade nas paredes da sala enquanto o público é convidado a circundar essas esculturas sonoras. Por setenta e oito vezes se lia a palavra “Munch” entre os limites das margens de papéis. As ondulações do breu e suas nuances cromáticas do preto ao vermelho, passando pelo amarelo, aparecem sobre esses papéis, mas agora com o auxílio de folhas de bronze, prata e ouro. Não há aqui a cascata com tom monumental das esculturas que choram, mas o convite à apreciação das pequenas quedas de luz e cor que esses papéis recortados trazem aos olhos. A linearidade das estruturas de vidro que era cortada pela queda do breu também é contrastada com as formas orgânicas e camadas espessas de matéria desse pequeno altar para o pintor norueguês Edvard Munch (1863-1944). Poderíamos nos restringir a essa leitura da exposição que pensa as imagens da produção de Nuno Ramos com uma abordagem da arte através da ideia de expressão, num modo de se ver alguns trabalhos contemporâneos como herdeiros daquilo que se convencionou chamar, pela geração seguinte a Munch, de expressionismo.



Mais uma vez, porém, ao ler as frases do artista, descubro que esses trabalhos foram produzidos em 2011 logo após o falecimento de sua mãe – “Fiquei tão tonto que passei alguns meses no atelier, zanzando pra lá e pra cá, desenhando e tentando me acalmar. 78 é o número de anos que ela viveu, e que eu quis de algum modo palmilhar nestes desenhos. Às vezes fazia dois ou três no mesmo dia; às vezes rasgava tudo; às vezes não fazia nada”. Longe de querer reduzir de modo psicanalítico essa exposição a um dado biográfico (que se configuraria também como uma invasão minha nesse doloroso momento pelo qual foi atravessado, não só um artista, mas um ser humano), insisto em olhar para essa reunião de reflexões visuais sobre a perda, o choro (enquanto ritmo musical e enquanto ato físico) e a herança de Munch como uma espécie de monumento a tudo aquilo que se esvai – o amor, a vida, a família, a presença física, enfim.

Voltando às sábias palavras de Batatinha, mas chamando para o diálogo uma de suas primeiras composições intitulada “Diplomacia”, “Meu desespero ninguém vê / sou diplomado em matéria de sofrer” – e que nossos sofrimentos venham de encontro a aqueles de Nuno Ramos.


(texto publicado originalmente na ArtNexus de junho-agosto de 2014)

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