Páginas

sábado, 14 de junho de 2014

Casas


Rosângela Rennó possui uma trajetória artística que se inicia em meados dos anos 1980 e ganha maior notoriedade no que diz respeito ao seu reconhecimento institucional na década posterior. É parte de sua pesquisa uma reflexão que gira em torno dos diversos usos das imagens e de seu lugar de destino no fluxo geralmente cruel da História. Após participar de dezenas de exposições no Brasil e exterior, dentre elas duas edições da Bienal de São Paulo (1998 e 2010), a artista foi convidada para realizar um projeto individual no ainda recente espaço da Casa Daros, sediado no Rio de Janeiro.

Em entrevista dada em 2003, a artista diz: “Eu gosto de criar sistemas de investigação, sistemas de pesquisa. Quando não há uma pesquisa pra fazer, eu invento uma em cima daquele material”. Essa declaração me parece ser um bom norte para esta exposição individual onde pôde se debruçar sobre a complexidade de se pensar a relação entre imagem, documento e narrativa no que diz respeito ao edifício que abriga agora a Casa Daros, novo museu carioca que abriga parte da coleção Daros Latinamerica, fundação sediada em Zurique, na Suíça, e que possui um grande número de obras contemporâneas de arte latino-americana.

Em 1738, é criada uma instituição chamada Casa dos Expostos, ou seja, um espaço onde menores abandonados podiam ser entregues. Anos depois, a instituição passa a se chamar Recolhimento das Orphans da Santa Casa de Misericórdia e bem posteriormente, nos anos 1960, passa a se chamar Educandário Santa Teresa, um internato com educação de excelência para mulheres. Desde meados dos anos 2000, o espaço foi comprado pela Daros e seguiu em processo de reforma e alteração para o formato encontrado atualmente. Não apenas os nomes próprios da casa mudaram de nome, mas também as palavras que definiam o urbanismo carioca – o bairro que atualmente se chama Botafogo e onde está a Casa Daros já foi chamado de Centro, Laranjeiras e São Cristóvão. De quais modos, portanto, Rosângela Rennó poderia se aproximar dessa partícula da história da cidade do Rio de Janeiro e, ao mesmo tempo, de biografias de figuras cujas existências não dependeram dos holofotes?



O primeiro dado que saltava aos olhos era a expografia. Rennó se coloca distante da tentativa de transformar um espaço que foi de habitação em cubo branco. Um segundo olhar, porém, perceberá que ela se apropria de uma tessitura típica dos museus, a saber, a utilização de um adesivo que acompanha o espectador até a última das salas e traz informações quanto à cronologia do edifício – uma grande linha do tempo. Esse dado causava uma confusão interessante aos olhos do espectador – seria essa sala uma proposição informativa da direção do museu ou uma proposição artística?

Ao redor dessa narrativa, uma proliferação de imagens que acompanhava e tornava complexa a dúbia relação entre imagem e texto. Álbuns de fotografia fechados, mapotecas com fotografias de grupos de alunos do Educandário Santa Teresa (nome dado à nova configuração escolar do espaço nos anos 1960) e uma diversidade de fotos emolduradas remetiam aos materiais explorados pela artista em sua trajetória. Saindo, porém, dessa documentação fotográfica, a opção por se apropriar de objetos causava um estranhamento formal que tinha ecos, por momentos, dos objets trouvés do surrealismo. Um violino se apoiava sobre uma gaveta com vários puxadores. Ao enfocarmos nos detalhes e pesquisar, veríamos que se tratava da parte da frente de um órgão usado nas aulas de música. O violino, por sua vez, foi emprestado por uma das diversas ex-alunas dispostas a partilhar de sua memória privada.



Nessa exposição era possível lidar, do mesmo modo que no surrealismo, com um ambiente que se utilizava da figuração para se pensar a imagem em uma perspectiva mais onírica ou mesmo fantasmática. Por mais que dados históricos fossem apresentados ao espectador, não se fazia possível esquecer que nenhum texto conseguiria suprimir o poder do tempo sobre essa arquitetura. Essas camadas de imagens, de materialidades e de biografias cortavam toda a exposição – desde a assinatura da artista, convidada para esse diálogo através de seu olhar externo, passando pela participação daquelas vidas ainda acesas que viveram suas infâncias ali, até uma oficina de fotografia oferecida pela própria artista entre 2007 e 2008 e que documentou as reformas que geraram a atual Casa Daros.


Fica conosco a surpresa de que,
mutatis mutandis, ainda estamos dentro de uma casa (agora da arte contemporânea) e que, de um modo bem diverso, as vidas seguem a se cruzar aqui dentro. Mais do que isso, ficava o convite para exercitarmos nossa memória, retornamos aos espaços residenciais por onde nossos corpos transitaram, às escolas onde também erramos as notas do violino e aos objetos que ainda nos acompanham. Parece-me, por fim, que Rosângela Rennó conseguiu recodificar de modo sutil e ético uma micro-história no Rio de Janeiro em uma experiência existencial inerente àquilo que é humano.


(texto publicado originalmente na ArtNexus de junho-agosto de 2014)
[fotos de autoria de Thiago Barros]

Nenhum comentário: