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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Complexo/simples



Talvez um bom modo de começar esse texto seja a partir do trabalho de Marcos Chaves, artista convidado da exposição “Travessias”, realizada entre 13 de abril e 23 de junho, no Galpão Bela Maré, no Rio de Janeiro. O artista se utilizou da nona passarela da Avenida Brasil, uma das rodovias mais movimentadas e engarrafadas da cidade, além de uma das responsáveis por unir o centro do Rio de Janeiro ao subúrbio. Foram pendurados dois grandes tecidos com frases: de um lado se lia “Amarécomplexo”, enquanto do outro lado, no nosso suposto retorno, se podia ler “Amarésimples”.

Esse jogo de palavras chegou a ganhar disseminação virtual, aparecendo em redes sociais e instigando passantes para além da redoma do público que trabalha e frequenta exposições de arte contemporânea. Amar, portanto, podia se configurar como algo simples ou complexo; em outras palavras, colocando melhor, o espectador era convidado a fruir a possibilidade de se amar como uma faca de dois gumes, intrinsecamente simples e complexo. Logo ao lado dessa passarela, com seus cento e trinta mil habitantes, há um bairro chamado por alguns como “Favela da Maré”, por outros como “Complexo da Maré” ou apenas dito como “Maré”. Independente de como nos refiramos a ele, é inegável a articulação já feita por Marcos Chaves: a Maré é simples e a Maré é complexa.

Situada na chamada Zona Norte do Rio de Janeiro, se trata de uma região que geograficamente já se coloca no polo oposto dos cartões postais do Rio de Janeiro e da brasilidade - a Zona Sul e suas orlas. Como todo bairro que escape do centro histórico ou dos banhos de mar no Rio de Janeiro, se trata de uma área geralmente esquecida e não agrupada em uma imagem turística e cliché da cultura carioca. Agravando essa visada, não podemos perder de vista que se trata de uma área com um tráfico de drogas latente, moradias precárias e um planejamento urbano irregular. De todo modo, como Marcos Chaves demonstra com a sua frase, há aí um elemento que transcende as categorias socioeconômicas, move aquilo que é humano e estimula o encontro com a arte: o amor ou, pensando de modo mais amplo, a gana pela vida e a ânsia por ir de encontro a eventos culturais que, infelizmente, na maior parte das vezes é restrito aos moradores do outro lado da cidade.

Pensar uma exposição de arte contemporânea dentro desse bairro é, portanto, um desafio – simples e complexo. Como construir uma narrativa curatorial que dialogue com esse espaço, mas que não se aproprie dele de modo superficialmente etnográfico e relacional? Como garantir que os próprios moradores da Maré frequentem essa exposição e que ela não se torne uma alavanca para um pequeno intervalo de exotismo dentro das rotinas dos integrantes do circuito artístico da Zona Sul carioca?

No texto que abre o catálogo da exposição, escrito pelos curadores Felipe Scovino e Raul Mourão, se diz: “As perguntas que pairam no ar são: como viver em um mundo regido por diferenças, e qual o papel do artista nessa cidade que muda vertiginosamente?” – e concluem ao final da escrita: “Travessias 2 – Arte Contemporânea na Maré é uma exposição que cria, desta forma, uma correspondência com novos sentimentos que atravessam a cidade: reinvenção, recuperação e transformação”. Após se ler o texto curatorial na íntegra, portanto, paira a impressão de que a exposição foi pensada a ter como um dos tópicos centrais as percepções contemporâneas do homem acerca da cidade, suas mudanças e, por consequência, o modo como um morador da Maré pode ver a si mesmo e ao “outro”, e vice-versa. Mas será que isso era problematizado através dos trabalhos e artistas escolhidos?

Em uma série de entrevistas feitas com os curadores, produtores e alguns artistas, todas disponíveis online, algumas frases chamam a atenção. Em dado momento, Raul Mourão, por exemplo, diz que “é uma exposição meio que sem conceito; a gente apostou nos nomes”. Posteriormente, outros entrevistados comentam a “comunicação rápida” dos trabalhos e ressaltam que os artistas participantes são importantes e que tem uma carreira internacional consolidada.


Ao lermos os dez nomes inseridos no galpão central da exposição (sem esquecer, claro, que mais três artistas foram creditados como “participações especiais” e não expuseram nesse ambiente, mas no entorno dele) é inevitável, caso se tenha algum conhecimento da cena contemporânea internacional da “arte brasileira”, o peso de seus nomes. Ernesto Neto e Vik Muniz representam para muitos curadores internacionais que acessam, quando necessário, a ideia de “brasilidade”, um farol. Junto deles, Daniel Senise, Marcelo Silveira, além de nomes mais jovens como Cadu e Luiza Baldan, muito são mostrados em exposições coletivas em grandes museus no Brasil. Independentemente dos nomes próprios, para além de currículos, prêmios e pós-graduações desses artistas cujos nomes já conhecia, fico a me perguntar: de qual modo os seus trabalhos podem dialogar com a Maré? Tentando explicar melhor, como se relacionar com esses trabalhos pensando na vontade curatorial de problematizar os processos de renovação de qualquer cidade e, além disso, atingir os próprios moradores da área?



Com grandes dimensões, o público se deparava no centro de uma das paredes do galpão, com as pinturas de Carlos Vergara. Com uma trajetória onde seu nome esteve em muitas das grandes exposições realizadas no Brasil desde os anos 1960, é difícil restringir a produção de Vergara a uma linguagem específica. De todo modo, os diversos modos de se construir através da bidimensionalidade, habitam suas produções mais recentes. Esse grupo de imagens suas no galpão fazia um enfrentamento interessante a grande biblioteca de estantes de madeira que se encontrava do lado oposto à parede. Das suas imagens de uma paisagem fantasiosa, podíamos ver ao seu lado os trabalhos de outro pintor, Arjan Martins. Através de pinceladas rápidas que permitem ver o volume da tinta, o artista mostra figuras humanas em atos banais, tais como o de descascar ou cortar alimentos. A forma está longe da banalidade: o espaço entre os corpos é preenchido por um vazio que faz com suas imagens respirem e tenham uma espacialidade que dialoga com a tradição da fotografia. Essas telas apenas parecem inacabadas; se faz importante que o entorno dessas narrativas não estejam saturados por informações visuais, justamente para que o espectador possa apreender o que se passa dentro dos seus quatro lados. A negritude se faz presente e, talvez, o estereótipo de uma imagem da favela é recodificado.

Daniel Senise, outro artista que geralmente é lembrado pelo seu percurso como pintor, apresentava um trabalho que também alargava as expectativas do olhar. Em uma instalação feita a partir de olhos mágicos, o público era convidado a mirar algo que supostamente se escondia atrás de uma das paredes da exposição. Para sua surpresa, este era presenteado com visões de diferentes museus, sendo um deles uma imagem do Prado, da sala de Diego Velásquez e outro deles uma visão efetiva do Galpão da Maré. Ladeava-se, portanto, tradição e contemporaneidade. A Maré podia, assim, conversar com Madri; Arjan Martins travava um diálogo com Velásquez. Por fim, Daniel Senise fazia pintura sem pintar, através de uma citação que colocava o contexto local em diálogo com uma concepção ampla de arte e museu. Com Cadu, através uma instalação feita com peças de aeromodelagem a serem montadas, presas sobre uma parede, tínhamos a relação entre desenho, engenharia e máquina aos nossos olhos. A miniatura dessa máquina de deslocamento desmontada criava uma rede de formas no espaço, construindo uma espécie de literal mapa aéreo que nos fazia lembrar também, tendo em mentes fatos recentes na História do Rio de Janeiro, a ocupação das favelas por parte da polícia militar e a vigilância radical do governo sobre aqueles que se manifestam nas suas ruas.



Lucas Bambozzi mostrava uma videoinstalação que se relacionava diretamente com a carga cultural da imagem da favela e do termo, há muito pejorativo, “favelado”, o habitante desse espaço. Um grupo de moradores da Maré se reúne em uma espécie de linha e encara o público em uma projeção feita dentro de uma grande sala escura. Sejamos de uma tradicional família de Ipanema ou também moradores da Maré, somos convidados a esse contato visual, mesmo que através de um registro audiovisual. Esse retrato em movimento nos leva a perguntar qual o nosso lugar em uma cidade tão contrastante socialmente como o Rio de Janeiro e, mais do que isso, qual o peso do contato interpessoal através do olhar na nossa rotina.

Num contraponto a esses artistas cujos trabalhos comentei brevemente e que, a meu ver, levantam questões que parecem ir de encontro ao desejo da curadoria, há também a produção já muito institucionalizada de Vik Muniz. Especialmente disseminado publicamente após o lançamento do documentário “Lixo extraordinário” (2010) e de ter feito a abertura de uma famosa telenovela no Brasil, mostrava algumas imagens da série “Pictures of magazine” (2011). De qual modo, porém, essas imagens conversam com os outros trabalhos da exposição? Será que deveríamos apelar para uma leitura da “precariedade” desses recortes de revistas que ecoam obras da chamada tradição da “pintura ocidental”? Esse suposto caráter precário da imagem dialogaria com a entropia da favela? É possível ver isso através de imagens de altíssima definição e que limpam do nosso olhar qualquer resquício de sujeira? Como uma tentativa de ser um Arcimboldo contemporâneo, Vik Muniz, no meu estranhamento de sua inserção nessa curadoria, me faz lembrar que o Brasil, em muitas das perspectivas de institucionalização da arte no mundo ocidental, é comumente inserido na categoria de “latin american art”. Em outras palavras, até que ponto uma releitura de Pierre Bonnard feita por suas mãos terá uma digestão de longa duração no Galpão da Maré, para além de sua instantânea potência como imagem? Que problemas trazem sobre a cidade e a existência para além de mais uma fórmula maneirista da arte na contemporaneidade? Menos projeção internacional, um nome com menor peso e uma obra menos fácil teriam sido uma melhor opção dos curadores.



Como um entrevistado diz em um dos vídeos sobre essa exposição, esse projeto “não é um favor”. Não se trata de um assistencialismo cultural na favela, mas sim de um espaço de disseminação da arte contemporânea que deveria ser vivo por longos tempos de duração e de modo permanente, tal qual o Museu de Arte do Rio, nova menina dos olhos da classe artística carioca. Sendo essa a segunda edição do evento e tendo trazido ao público alguns trabalhos que, efetivamente, problematizavam de modo não óbvio a relação entre cidade e humanidade, fica o desejo para que mais edições se realizem e que o diálogo entre local e global permaneça. Que outros nomes como o de Ratão Diniz, fotógrafo nascido em uma favela e que apresenta um olhar instigante sobre o seu redor, venham mais à tona e não transformem o arriscado potencial de que esse espaço vire uma plataforma para se fruir ou se apropriar de modo exótico de uma alteridade historicamente construída a respeito do Rio de Janeiro.

Diferente de ser um “outro”, uma “periferia” ou algo “marginal”, a Maré é um espelho do Rio de Janeiro. Trata-se de um espaço, tal qual colocado por Marcos Chaves, muitas vezes lido de um complexo ponto de vista simplista e que clama por outras oportunidades para que possa avaliar sua imagem e autoimagem.

(texto publicado originalmente na ArtNexus de dezembro-fevereiro de 2013-2014)

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