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segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Histórias circulares



Nosso planeta, essa concentração de água e terra, já recebeu os mais diversos tipos de representações verbais e visuais. Sua forma de globo, por mais que se saiba que diversos objetos assim produzidos desde a Antiguidade, tem seu exemplar mais antigo preservado com autoria do alemão Martin Behaim e datado de 1492. Como Cristóvão Colombo retornou a Espanha apenas em 1493, as Américas não fazem parte dessa abstração tridimensional das dimensões do mundo. Com esse exemplo podemos refletir sobre o que me parece ser o tópico central dessa exposição, ou seja, a relação entre imagem, História e território.

Do mesmo modo que mapas se modificam de acordo com as expansões geográficas e novas técnicas de rastreamento e criação de imagem, as apreensões sobre espaços que não são tidos como as raízes de narradores, ou seja, o lugar do “outro”, ganham diferentes tons. Daniel de Roo em seu trabalho “Detour” se apropria de parte da literatura de Hans Staden, famoso viajante do século XVI que, longe de se encaixar na imagem dos naturalistas que posteriormente chegam ao Brasil, vem em busca de fortuna e, por que não, aventura. Teria Staden em mente a mítica ilha de Hy Brazil, já anunciada em documentos da Idade Média?

Trabalhando justo com o campo da dúvida, somos convidados a fruir uma série de narrações que, embebidas pelo caráter sério com tom de oficialidade do sotaque britânico, nos coloca na perspectiva fabulosa de Staden. Entre o documento e a ficção, entre o Renascimento e 2013, entre a leitura e a interpretação histórica, mapas, embarcações e abstrações visuais nos lembram que, mais do que o caráter escultórico de um globo, o “mundo”, esse conceito tão vago quanto as verdades de um relato de viagem, pode e deve ser desconstruído através de diferentes primeiras pessoas do singular.





Ao lado desse “detour” que em seu sentido de “anti-tour” pode ser enxergado como uma digressão narrativa, temos as fotografias de Nicky Dracoulis. Enquanto Staden esteve no Brasil por duas vezes com um intervalo de um ano, a fotógrafa australiana agora retorna ao Brasil após oito anos de hiato. As palavras saem de cena e dão espaço à criação de imagens através de encontros mediados pela fotografia. A unidade que o Morro do Cantagalo proporcionava através da música, se dissolveu e entranhou nas vicissitudes da geografia e das mudanças políticas na cidade do Rio de Janeiro.

Como reativar esse contato com o outro sem cair numa etnografia barata? Uma boa opção me parece ser a da série de reencenações de fotografias mostradas nessa exposição. Mais do que lançar um olhar rápido e estetizante, Nicky repensa junto aos seus fotografados como reconstruir poses e espaços até então relativos a 2005. Cabelos, vestuários e o corpo de algumas pessoas se alteram. Paredes são reformadas, amores são sustentados, o Cantagalo é deixado para trás e, assim como tudo na vida, o desaparecimento abate uma das pessoas com quem um dia teve contato. Para além da potência dessas imagens que, lado a lado, falam sobre encontros de vidas (dentro das fotografias e, claro, junto à fotógrafa), há um dado que me parece essencial: a presença de nomes próprios que, somados ao brilho desses olhares, atravessa a materialidade do papel e cruza continentes.

Os dois artistas participantes dessa exposição, portanto, apresentam não apenas histórias que são circulares por si mesmas, seja devido ao caráter ficcional de qualquer narrativa que se supõe histórica, ou seja pela ficção intrínseca à fotografia; imagino que, do mesmo modo que os globos se fazem circulares, temos à nossa frente histórias que também precisam circular pelo globo. Não à toa, ambos cruzaram o atlântico para, uma vez mais, contarem histórias que fogem das linearidades fáceis e nos incitam a uma percepção do mundo de modo mais espiralado.




(texto para a exposição da terceira edição do Programa Internacional de Residências, no Barracão Maravilha, entre 8 de novembro e 14 de novembro)

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