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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Entre a areia e o mar



The sea is calm
Through the video camera
Like a dead light bulb
In a bucket of water[1]

            
Em junho de 2011, Leila Danziger apresentou, em Tel Aviv, a exposição O que desaparece, o que resiste, fruto de sua pesquisa de pós-doutorado junto à Bezalel Academy of Arts and Design Jerusalem, em Israel. Instalações, objetos e projeções em vídeo ocupavam o espaço, e demonstravam o desdobramento de sua pesquisa artística Diários públicos, desenvolvida no Brasil a partir da apropriação de jornais. Entre os cinco novos vídeos apresentados, parece justo refletir sobre aquele que intitulou a mostra.

Jornais sobrepostos e em movimento. O voo de algumas páginas revela que a pilha de papel está colocada sobre a areia. Devido ao modo como sopra o vento, é lógico concluir que a cena se passa em uma praia. Enquanto isso, no campo do áudio, escutamos, de modo tímido, o som das ações da artista, que, com um método extrativo, apaga, anula imagens desses mesmos jornais ainda intactos. O que líamos na página que voou? Dusting off a documentary [Tirando a poeira de um documentário], uma matéria sobre o filme Memories of the Eichmann Trial [Memórias do julgamento de Eichmann, 1979], de David Perlov. Realizado para um canal israelense de televisão e arquivado 32 anos após sua transmissão, o documentário seria finalmente exibido na tela de uma sala de cinema.

A matéria versa sobre o esforço em recuperar uma cópia integral do filme, já que a única disponível estava em vhs, “já amarelada” e sem que os três minutos iniciais, além dos créditos finais, estivessem presentes enquanto imagem. O filme se refere à figura de Adolf Eichmann, tenente-coronel da Alemanha nazista, capturado e julgado publicamente em 1962. Protegido por um vidro à prova de balas, seu julgamento, em que diversas vítimas do antissemitismo nazista depuseram à sua frente, foi transmitido ao vivo por diversas televisões internacionais. Esse fato e sua condenação à morte tornaram o caso único no âmbito da justiça israelense. Devido à proximidade dos 50 anos passados desse episódio, uma das filhas de Perlov[2] parte em busca da cópia original em 16mm do filme.



A cópia é encontrada nos arquivos da televisão que a encomendou, mas o som dos três minutos iniciais (presentes na cópia de posse de Perlov) estavam ausentes na película. Perdas: uma imagética, outra auditiva. Devido às duas vontades de arquivamento (da televisão e de seu pai), somadas à tecnologia contemporânea de restauração de objetos audiovisuais, foi possível reconstruir o filme de modo próximo ao original. Após esse processo técnico, a família de Perlov resolveu descobrir a identidade dos entrevistados no filme, visto que o diretor optou por não inserir legendas com seus nomes. Há uma fala de Liat Benhabib, auxiliar de Yael Perlov na reconstrução do filme, que está inserida na página voadora do vídeo de Leila:

Nós pensamos em publicar fotos dos indivíduos desconhecidos e pedir ajuda em sua identificação, mas isso pareceu impróprio. Em vez disso, contatamos historiadores e acadêmicos daquele período, especificamente aqueles que lidaram com o julgamento de Eichmann, vários funcionários do Yad Vashem, assim como as pessoas que estavam envolvidas com a realização do filme. No final, conseguimos identificar 11 dos 14 entrevistados. Três deles permanecem um mistério.[3]

O que essa matéria publicada no jornal Haaretz denota é a vontade de História (ou uma “vontade historiográfica”) empreendida por um grupo de pessoas que se deparam com uma obra incompleta, com fungos, com lacunas tanto na parte técnica quanto no que diz respeito à informação. A primeira pergunta que faço é esta: o que David Perlov diria a respeito desse esforço? Não me refiro à recuperação matérica do filme, mas a busca incessante por nomes próprios. Perlov não transmitia, ao menos em seus Diários, a impressão de ter grande afeição pelos anônimos? Em sua obra, vemos motoristas, crianças brincando nas ruas, soldados, turistas, multidões; à exceção de sua família, que de tão presente se torna íntima do espectador, Perlov não tende a utilizar cartelas, nomes enquanto significantes sobre a imagem capturada. Os nomes próprios aparecem, majoritariamente, no discurso oral de sua narração autobiográfica; não são vistos, mas ditos.



Leila Danziger realiza um contraste com as informações encontradas na página de jornal já evocada durante os sete minutos de seu vídeo. Com um corte seco, do surgir da areia já somos confrontados com uma sequência de jornais sendo apagados e seu insistente som, sempre sincronizado com a imagem. As mãos da artista não ficam à mostra; o que interessa é o repetitivo ato de eliminar informações dessas páginas de jornal e criar uma textura que irá se assemelhar, por exemplo, à pintura de Mark Rothko. Temos aqui nuvens de dados, fantasmas de imagens, nomes próprios e textos que, assim como qualquer objeto existente, possuem uma potência de ruína.


Em alguns momentos, a fragilidade do papel não resiste a esse ato corrosivo e, no lugar do apagamento, surge um novo som, o de um rasgo. Uma amálgama de papel se dá quando o ato de apagar é somado ao de rasgar. Parte da folha fica presa à base e outra fica suspensa, dando ao vídeo uma sensação de tridimensionalidade. Devido a isso, conseguimos enxergar folhas atrás daquelas que estão em primeiro plano. Temos camadas de informações, andares de uma torre que, talvez, possa ser comparada à torre de Babel, visto que os idiomas dos jornais são dois, o hebraico e o inglês, sem que nos esqueçamos das experiências anteriores da artista com jornais brasileiros e também alemães. O que desaparece e o que resiste por meio desse objeto que, por tal perspectiva bíblica, anseia por transformar em imagem as complicadas relações culturais e políticas desses povos que falam diferentes línguas e habitam esse edifício em desmonte? O que desapareceu e o que resistiu ao longo dos quase 50 anos do julgamento de Eichmann no que diz respeito às relações entre Alemanha e Israel?

Adultos, crianças, mortes, nascimentos, mulheres vestindo
hijabs, sinagogas, viagens, natureza, produtos de consumo, guerras; diversas temáticas são cortadas e harmonizadas audiovisualmente pelas mãos da artista. Trata-se de um registro, de um arquivo do jornal que, em sua essência, também arquiva fatos e fotos de um dado momento da História de uma nação, uma cidade ou mesmo, com agá minúsculo, da história de um indivíduo. Vídeo-arquivo não só do estático, mas também do cinema e da televisão, visto que em alguns momentos Leila Danziger volta sua lente para telas com imagens em movimento.

No meio dessa orquestra de papel, após minutos de um som que se assemelha ao de um alimento a fritar ou mesmo de um ácido a agir, vê-se a imagem de uma criança de frente para o mar. Voltamos à presença da areia e à lembrança da paisagem. O som do papel é substituído pelas ondas. Um jornal molhado em que se lê o nome da cidade dividida entre Israel e Palestina: Jerusalém. O papel molhado não tem a mesma leveza para ser transportado pelo acaso e pelo vento; a informação líquida é revestida por paisagem, se desintegra na areia ou vira elemento do mar. Qual será o destino desse nome próprio de uma cidade que, etimologicamente, significa “legado da paz”?




Molhada, essa folha de papel se assemelha a certa iconografia da natureza-morta encontrada durante o século
xvii, precisamente na Holanda: a pintura de peixes e outros frutos do mar “encalhados”, a definhar à beira do oceano. Transposição da vida (água) para a morte (areia), inversa à materialidade e à utilidade do jornal. Esses peixes não apenas eram representações da abundância da sociedade holandesa ou mesmo pinturas que visavam criar imagens do trabalho, mas também podem ser interpretados como uma alegoria da brevidade da vida. Temos, portanto, com a imagem deste jornal-peixe, especialmente quando colocada logo após a imagem de um jovem a contemplar o horizonte, uma leitura da Vanitas, uma atualização contemporânea da tradição cristã de lembrar ao homem que nossa existência no mundo é efêmera e, portanto, há de se ter comedimento nos atos. A criança irá desaparecer ou resistir à crueldade corrosiva dos homens?

Vanitas
é justamente o título de outro dos vídeos apresentados na mesma exposição. Nessa obra, a artista apaga imagens do jornal que contêm outros elementos iconográficos desse tópico da pintura ocidental: retratos, flores, caveiras, relógios e cemitérios viram sombras de imagens. Um anúncio de Melancolia (2011), filme de Lars von Trier, é transformado em vestígio. A pata de um gato tenta impedir a descamação de uma página. Outro felino é visto a caminhar por um cemitério, livremente, do mesmo modo que folhas de jornal são capturadas a flanar pelas ruas da cidade. Se em Beleza Americana (1999), de Sam Mendes, um dos personagens filma uma sacola plástica a voar por 15 minutos e diz que assiste a essa imagem para se lembrar da beleza existente no mundo, é possível afirmar que a rápida aparição dos jornais que voam no trabalho de Leila Danziger remete à ideia contrária. Os poucos segundos destinados a esses objetos, que, sem uma leitura definida, se tornam tão vazios quanto a sacola plástica, meros indícios do aspecto efêmero da palavra informativa, fazem com que aquele que os frui tenha em mente a fugacidade da vida.

Em
News [Pallaksch Pallaksch], o som afiado dos jornais é substituído pela leitura parcial do poema “Tübingen, Janeiro”, escrito e lido pelo poeta Paul Celan, poema já utilizado pela artista em outras obras recentes. A sobreposição física de jornais dá lugar à sobreposição virtual de imagens. Enquanto na obra anterior eram perceptíveis as ideias de acúmulo e de tridimensionalidade, aqui cria-se um ambiente mais onírico, que conjuga, por exemplo, as ondas do mar e o voar dos jornais. A paisagem recebe o caráter de dado científico, de geografia: a imagem de um mapa-múndi com os continentes preenchidos pela cor preta é sobreposta pelas mãos da artista a extrair a frase “Remember Paris” (“Lembre-se de Paris”), título de um artigo que lembra os conflitos estudantis de maio de 1968, associando-os, criticamente, às revoltas populares nos países árabes no início de 2011.


Do poema lido para o poema composto pela imagem. Em “When man’s castle is a storage room”, a artista constrói novos significados por intermédio do destaque de manchetes de jornais. O tamanho destas e a sequência de imagens constroem os versos de um video-poema. Em uma segunda camada de imagens, há novamente o mar e o jornal, que, fadado ao fracasso, tenta nadar. Esses poemas existirão apenas como registro em vídeo, visto o caráter literalmente fragmentário de seus versos. O castelo do homem foi transformado efetivamente em um depósito, em uma videoteca.

Esses quatro primeiros vídeos estão baseados na apropriação, no apagamento e na criação a partir da matéria do jornal. Na exposição realizada por Leila Danziger, eram projetados sobre as paredes brancas da galeria ou através de pequenos televisores. Importante frisar que seus sons se entrecruzavam pelo espaço, proporcionando uma espécie de colagem e fusão entre os sons dos fantasmas de jornal, do mar que desmaterializa e da leitura de Paul Celan. Dispersas pelo espaço institucional das três salas de exposição, as fitas que a artista utilizou para realizar a extrações de imagens e palavras atribuem tridimensionalidade ao caráter planar do papel. As narrativas que ocupam os jornais e que representam fatos que empurram ou freiam nossas vidas ganham volume e peso na instalação.

No quinto e último trabalho apresentado na exposição,
Lição de hebraico, temos novamente uma videoinstalação. A artista, tal qual David Perlov, constrói um monumento para um membro de sua família, seu pai. Judeu, nascido na Alemanha e imigrado para o Brasil, ao longo da vida ele sempre recorreu e tentou instaurar sua relação com o judaísmo pelo estudo do hebraico. Para tal, ouvia um antigo vinil didático em que pequenos diálogos eram repetidos. O domínio da língua, que seria construído a partir da memorização, fica em segundo plano e cede lugar ao esforço cotidiano em lembrar suas raízes culturais. Como acessar e construir uma identidade judaica no Brasil? O que resiste e o que persiste desta “torre de Babel” genealógica que entrecruza Alemanha, Brasil e Israel?

Olhar para o horizonte será, de maneira inevitável, rememorar o território abandonado. Retornamos, portanto, à praia. A artista escava a areia e nos revela uma caixa que ostenta em sua tampa a imagem de uma Menorá, importante símbolo judaico; trata-se do arquivo/depósito que resguarda o vinil de seu pai. Ao fundo, ouvimos, de modo pausado, a repetição de uma das lições de hebraico. A mão que retira a areia é a mesma que a coloca. Curiosamente, porém, trata-se não de fazer artesanalmente o ato e de filmá-lo, mas sim de retorná-lo, “rebobiná-lo” digitalmente, enterrá-lo de modo artificial. Fazer a imagem voltar tem algo de apego; é querer voltar para ter o prazer de desenterrar novamente. Trata-se de um medo de encerrar o aspecto de “descobrimento” de um objeto já enterrado. Um vídeo sobre perda e saudade.

Nesse mesmo vídeo, frases do conto
O judeu errante, de Goethe, são apagadas de um livro impresso em tipografia gótica. O pai da artista, ao migrar para o Brasil, trouxe uma coleção de livros alemães impressos nessa tipografia; translado literal de sua bagagem cultural. A leitura dessas obras, porém, se torna complicada não tanto devido à dificuldade de apreensão dos signos gráficos, mas sobretudo pela dramática ruptura e pelo afastamento das gerações futuras em relação à cultura alemã. Ao lado da projeção vídeo, Leila Danziger coloca um exemplar do livro de Goethe com suas frases desfeitas, tal qual serpentina de carnaval. Um monumento à tentativa e ao erro. Um monumento ao esquecimento feito para não se esquecer.

Ao redor desse livro e na caixa de vinil, há areia na projeção do vídeo. Quando esses objetos forem retirados de tais superfícies instáveis, deixarão marcas. Até quando elas ficarão ali? Até que o tempo as dissipe. A areia é a História (com ou sem agá maiúsculo, coletiva ou individual, nome próprio por ser localidade ou personalidade). O mar está calmo apenas no vídeo; ele é o tempo que corrói, assim como a água de um balde apaga a luz de uma lâmpada.




[1] “O mar está calmo/ através da câmera de vídeo/ como uma lâmpada morta/ em um balde d’água”. Música e letra de Cocorosie (Bianca Cassidy e Sierra Cassidy). “The sea is calm”, do álbum Noah’s Ark, Touch and Go Records, 2005.
[2] Yael Perlov, uma das “protagonistas” dos célebres Diários, filmados por David Perlov, em que sua esposa e suas filhas gêmeas são acompanhadas de perto durante os anos de 1973 e 1983. O fim da adolescência, suas viagens para Paris e o Brasil, e sua relação com os conflitos entre Israel, Egito e Síria, são alguns dos tópicos presentes nesses seis episódios de cerca de 50 minutos cada. Esses filmes foram exibidos recentemente no Brasil, na mostra de cinema David Perlov – epifanias do cotidiano, realizada em março de 2011 no Rio de Janeiro e em São Paulo.
[3] anderman, Nirit. “Dusting off a documentary” [1º de maio de 2011] Disponível em http://www.haaretz.com/print-edition/features/dusting-off-a-documentary-1.359058.

(texto publicado originalmente como capítulo do livro "Diários públicos - sobre memória e mídia", organizado por Leila Danziger e lançada pela Editora Contra Capa, em 2013)

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