Páginas

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Raízes




Um dos trabalhos produzidos por Alice Quaresma durante seu período de residência no Barracão Maravilha é intitulado "Meu canto no mundo".
 Através de sua lente fotográfica, responsável pela aproximação e distanciamento daquilo que nos cerca, um objeto sem cantos, circular, a artista se pôs a revisitar lugares e interiores que marcaram sua biografia no Rio de Janeiro. Trata-se da tentativa de acessar cores, cheiros e falas que construíram sua entrada para a vida adulta e que agora, anos após sua partida rumo às muitas alteridades do globo, ecoam em seu olhar mediado pela fotografia.

Neste sentido, seu olhar também se encontra condicionado entre quatro cantos, aqueles da margem do papel onde essas imagens foram impressas. Não se trata, porém, de uma série de imagens passíveis unicamente da carga conceitual da ideia de “reprodutibilidade técnica” devido à intervenção pelo viés da pintura que a artista realiza. Novas imagens sobrepõem essas fotografias de uma nova medição do peso do tempo sobre sua trajetória. Algumas dessas inserções com tinta também possuem cantos – polígonos contornam detalhes da paisagem ou da decoração de objetos, enquanto outros cobrem e impedem a visão do espectador. Destaque parece ser dado de um lado, censura poderia ser visto do outro. Nesse segundo sentido, também podemos apreender algumas intervenções feitas a partir de pinceladas rápidas. Nessa espécie de configuração inusitada de um jogo da memória, ficam perguntas: há como equilibrar esquecimento e lembrança? É necessário liberar o espaço de um para a entrada do outro? Quais reminiscências merecem ser emolduradas?






Enquanto uma das residentes volta, a outra, Chiara Tinonin, vem por uma primeira vez ao Brasil. Interessada nas relações entre arte, instituição e economia, especialmente em um momento em que o Brasil parece ter um boom da projeção internacional de sua imagem como um paraíso tropical dos investimentos, disponibilizou seu tempo para conversar e tentar compreender o sistema de arte no Rio de Janeiro. Porém, seria possível fazê-lo? É possível empreender essa pesquisa quando não existe um espaço público para o debate sobre o fazer artístico na nossa cidade e, por tabela, muito menos a articulação de uma reflexão sobre as economias da arte?

A inconstância da nossa cena (se é que podemos usar essa palavra para descrevê-la), portanto, se configura como um novo tópico e uma surpresa. Num espaço em que os encontros sobre arte geralmente se dão de modo casual e entre vernissages e num momento da História em que o tempo parece pouco para o nosso grande número de aplicativos nos
smartphones, como articular, então, uma série de conversas, encontros e discussões entre profissionais e público sobre arte e política? Aliás, que público de arte é esse? Não seria ele composto quase exclusivamente por esses mesmos profissionais? Por fim, ficamos na dúvida se é possível ou não se falar sobre arte. Talvez reafirmando a mudez de nossas discussões, acabemos por intrigar e incentivar articulações futuras em torno disso.

Entre lá e cá, entre chegar e voltar, essa exposição do Barracão Maravilha se coloca como uma reflexão sobre a relação com o outro – seja uma cidade e uma família perpassadas por uma série de alterações dadas pela passagem do tempo e indiciadas através de fotografia e pintura, ou seja na visada das diferenças entre uma reflexão excessiva sobre o circuito contemporâneo da arte na Europa e ainda incipiente em nossa cidade. Na ausência do verbo, resta, em contrapartida, os afetos dos encontros por acaso, tal qual esse de Alice e Chiara.


(texto para a exposição da segunda edição do Programa Internacional de Residências, no Barracão Maravilha, entre 5 de outubro e 25 de outubro)

Nenhum comentário: