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sábado, 26 de outubro de 2013

Jaguar preto



O presente texto é escrito do México, precisamente da cidade de San Cristobal de Las Casas. Entre idas e vindas de um projeto de pesquisa do doutorado, resolvi conhecer alguns sítios arqueológicos maias pulando de cidade em cidade. Afinal de contas, quando terei a oportunidade de voltar a esse país tão cedo? Na insegurança quanto a essa projeção do futuro, preferi fazer um trajeto de ônibus e me dar ao encontro com o inesperado (na medida do possível ou, melhor, na medida do mensurável – visto as inúmeras possibilidades de controle e organização que um celular dotado de 3G possibilita).

No meio do trajeto, esbarro com uma professora de arqueologia que me convence a ver um sítio chamado Ek Balam, próximo a uma cidadezinha chamada Valladolid, no percurso entre a orla paradisíaca de Tulum e a capital de Yucatán, Mérida. Lá estou, novamente, entre construções piramidais e associadas a esse universo complexo da “cultura maia”. Diferente, por exemplo, de um lugar como Chichen Itzá, muito turístico e ao mesmo tempo onde não se pode subir ao topo dos cartões postais, Ek Balam proporciona silêncio e escaladas que impossibilitam o esquecimento de sua transcendência. As tomarmos uma distância cada vez maior do nível da terra, percebemos a imponência e reclusão dessa área; mesmo em pleno ano de 2013, inexistem prédios que cortem a linha do horizonte e nos tirem dessa cidade milenar. Do alto da maior pirâmide, apenas duas coisas são vistas: o verde da vegetação e o tom agora acinzentado das pedras-sobre-pedras formam outras pirâmides.

Logo na entrada do sítio, havia uma placa indicado o caminho para o cenote de Ek Balam. Aprendi, então, que os maias costumavam estar baseados em regiões próximas a grandes concentrações de água. Além da função vital do líquido e de sua necessidade para o funcionamento de uma cidade, havia uma relação religiosa de veneração aos espaços aquáticos. Após uma caminhada de dois quilômetros, finalmente entendo o que é um cenote: se trata de uma boca d’água, ou seja, uma abertura, algo como uma grande cratera onde há uma reserva de água. É necessário, portanto, descer por um longo grupo de escadas para estar próximo a essa circunferência que, no caso de Ek Balam, tem cerca de vinte metros de profundidade.



Lá estava eu, então, com a minha carga de pessoa nascida no Rio de Janeiro e, por suposição, muito acostumada a momentos de exploração da paisagem, sozinho e de frente para uma visualidade típica de Yucatán e essencial para o pensamento cosmogônico de uma civilização. Não conseguindo esquecer meu medo, quando criança, de entrar na água do mar, tentei lidar com esse entorno. A água gelada, a presença de diversos peixes ao meu redor e, talvez mais gritante, a sensação de solidão de estar dentro de um buraco com água no meio de um pedaço da “mata mexicana” só atrapalhavam e me faziam voltar aos meus seis anos de idade.

Até que, em um momento que, caso fosse um filme, seria extremamente cliché, possivelmente advindo de algum filme como “Comer, rezar, amar” (2010) ou “Sob o sol da Toscana” (2003) com pitadas de “O fabuloso destino de Amélie Poulain” (2001), algo me fez entrar na água e nadar de um ponto a outro.  Meia hora depois, dentro de uma boia gigante, me coloquei no centro daquele lugar (agora mágico) e comecei a observar os ciclos ao meu redor. Os frutos que caíam, as aranhas que corriam pelas bordas da água, os peixes que se distanciavam sempre que fazia movimentos bruscos e as raízes das árvores que rodeavam a superfície do buraco. Quantos séculos não teria cada uma daquelas raízes gigantes? Quanto tempo se demora em se constituir aquela espessura? Quantos índios foram assassinados pelos espanhóis ali ao lado? Quantos sacrifícios maias não devem ter sido realizados nesse cenote?

Esse ato de se aproximar e duvidar daquilo que nos circunda e que não faz parte da nossa rotina ou de nossa concepção do que seriam nossas “raízes”, me parece inerente a qualquer viajante e sua consciência de deslocamento e distanciamento de um ponto de origem. Qual não foi minha surpresa, horas depois, ao pesquisar a etimologia da palavra “Ek Balam” e aprender que esta significa “jaguar preto”? “Ek” significa “preto” e “balam” significa jaguar. Sendo esse um dos maiores animais a habitar o território atualmente denominado América Latina, portador de uma força ímpar, é justificável sua presença nas imagens não apenas dos maias, mas da Mesoamérica como um todo.




Diversos são os modos de inserir o jaguar em um pensamento religioso, mas seja entre olmecas, maias ou mesmo os habitantes de Teotihuacán, o felino sempre esteve associado a uma imagem do poder. Devido à sua capacidade de poder caçar de dia e de noite, dormir sob as árvores ou dentro de cavernas, além conseguir se locomover entre a vegetação ou nadando pelos rios, foi comumente associado ao trânsito entre a vida e a morte, o claro e o escuro, o mundo superior e o mundo espiritual e subterrâneo.

O jaguar, portanto, possui a carga de vitalidade necessária a qualquer líder, mas ao mesmo tempo é capaz de se colocar em situações próximas da efemeridade da vida. A partir dessa simbologia, penso que toda situação de distanciamento geográfico pede do humano um pouco dessa potência do jaguar. A experiência da alteridade é libertadora e capaz de despertar o que há de mais fértil e obscuro dentro de cada pessoa.

Basta olharmos a seleção de filmes dessa mostra de cinema para percebermos isso. Muitos dos filmes selecionados têm suas narrativas baseadas na famosa vontade de “dar certo fora do Brasil”, ou seja, se parte do princípio de que o ambiente brasileiro não é capaz de se proporcionar uma esperada ideia de sucesso e que apenas ao sair de nosso “berço esplêndido” conseguiremos alcançar nossos objetivos. Os resultados, claro, são os mais diversos: há um trágico fim em “Jean Charles”, há um desencontro que se transforma em um encontro divisor de águas em “Dois perdidos numa noite suja” e também a câmera que, através das linguagens do documentário e da ficção, acompanha grupos de personagens que intercalam momentos de autoconfiança extrema e fragilidade infantil, como se pode ver com Caetano Veloso e seu “Coração vagabundo” ou com as atrizes que vão rumo a Índia em “Bollywood dream”.

Mas nem toda partida é desejada – algumas vezes os jaguares são presos em jaulas e são obrigados a circular de circo em circo. O exílio, portanto, também se constitui como um tópico importante dessa mostra. Como um bumerangue, toda pessoa que se esconde de modo forçado é obrigada e voltar e, mais que isso, lidar com as alterações afetivas, emocionais e políticas de seus países – e o “Diário de uma busca”, como seu título anuncia, realça que às vezes o próprio ato de buscar é o que importa.





Há também aqueles felinos que, talvez como Narciso, desejam um autoconhecimento através de uma abertura a uma ideia de “inesperado” talvez não encontrada no Brasil. Mais próximos da figura emblemática de um marinheiro, viajam para rever seus próprios traumas e fazem de suas frágeis âncoras seus divãs. Suas vidas não tem roteiro, mas, como qualquer biografia, é impossível apagar o passado – seja a falta de uma irmã em “Elena”, a saudade da mãe em “Terra estrangeira” ou a entrega quase juvenil à letargia em “Paraísos artificiais”.

Como se pode ver, o cinema contemporâneo no Brasil narra de modos muito distintos a relação triangular entre ser humano, embarque e encontro. Descobrem-se espaços inesperados, expectativas se esfacelam, esbarrões ganham os tons da paixão e, dias depois do ódio. Como diria uma música cantada por Elis Regina, “as aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam, porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões”.

Indiferente ao saldo final dessas idas e vindas, se é que ele existe e é discutido pelos filmes aqui mostrados, me parece justo concordar com algumas culturas que habitaram o México e voltar à figura do jaguar. Há uma série de esculturas dos olmecas que mostram homens em processo de metamorfose para a figura do felino. Essa me parece uma imagem interessante para alguém no fluxo entre aqui e lá, entre o medo do novo e a comemoração do fugidio.

Seja pour avion, por carro ou por busão, nos transformamos longe de casa. Alguns são jaguares e outros, ao menos no que diz respeito à avaliação que faço do meu próprio relato um tanto quanto patético dentro de um cenote, estão mais próximos de um gato persa. Se for miado ou rugido não faz muita diferença; o ponto é que, depois que nossos passaportes são carimbados, não somos mais os mesmos – assim como nossa visão do Brasil também não.


(texto produzido originalmente para o catálogo da mostra de cinema "Via aérea", realizada no Centro Cultural Correios de Recife entre 1 e 17 de novembro)

Um comentário:

Sueshouse disse...

Texto belíssimo!
Meu eterno jaguar,que chorava muito com os pés enfiados nas areias do Recreio.
Parabéns!