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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Entrevista com Berna Reale


- Você deu uma entrevista recente para um programa de TV dedicado aos artistas do Pará. O que você acha da sua produção ser interpretada como parte de uma cultura local?
Nunca fui interpretada como parte de uma cultura local, por isso demorei muito a chegar a São Paulo e Rio de Janeiro, pois na grande maioria das vezes quando curadores iam visitar Belém, procuravam artistas que de uma maneira ou de outra bebessem na fonte dos signos locais e a partir deles expandissem seus conceitos. Paulo Herkenhoff conheceu meu trabalho em 2005 e aí as coisas começaram a mudar para mim. Veio o Rumos agora em 2012 com a curadoria geral de Agnaldo Farias, e aí pronto, cheguei a São Paulo. Você precisa entender o que é expor na Paulista; todo mundo vê.

- Como você enxerga a relação entre artista e curador?
Eu penso que é maravilhoso ter um curador para discutir seu trabalho, esse foi um sonho que sempre tive e que agora posso desfrutar de vez em quando, se eu tivesse dinheiro eu pagava um curador para discutir comigo todos os meus projetos. Acho o papel dos curadores sérios fundamental em um processo de arte; o problema não é o curador, o problema muitas vezes é o artista que não sabe dialogar, ou se revolta ou é subserviente ao ponto do curador pensar que o trabalho do artista seria melhor com ele nu e o cara vai logo tirando a roupa... isso que não é bom, mas quando há trocas maduras penso que a relação curador-artista é perfeita.

- Muitos artistas contemporâneos utilizam elementos de linguagens mais tradicionais como desenho, pintura e gravura. O seu trabalho, por outro lado, se utiliza da fotografia, do vídeo e da performance. Em algum momento essas opções artísticas ficaram claras para você?
Eu comecei pintando na universidade, mas nunca fui boa de perspectiva. Depois optei por um dos meios artísticos mais antigos que existe, a cerâmica. Gostei do tridimensional e de mexer com elementos da terra, sou de uma família numerosa de agrônomos, doze, e na minha família somos terrenos literalmente, mas logo percebi que a cerâmica não dava conta de fazer o que eu queria, pois o material tem suas especificidades e limitações. Aí comecei a fotografar a terra e daí, me interessei pela imagem, pois, pensando bem, meu interesse é pela imagem, quer seja fotografia ou vídeo ou mesmo performance já que penso em como os elementos que escolho – figurino, cabelo, pele, ambiente – funcionam simbolicamente e como vão atingir visualmente o espectador.

- Sobre "Ordinário", você comentou que os ossos que utiliza na performance eram humanos. Tendo esse exemplo em mente, qual o compromisso do teu trabalho com a ideia de verdade e sinceridade?
Eu penso que arte não necessariamente tenha que ter um compromisso com a verdade. Temos artistas maravilhosos que abordam outro viés, penso sim que o artista tem que ser sincero com o que faz, verdadeiro, isso sim, penso que só comprometido com seu objetivo o artista é capaz de alcançar as pessoas, quer seja falando do passado, presente ou tecendo relações ficcionais.

- Você costuma dizer que seu trabalho é sobre a violência nos dias de hoje. Quais violências que mais te afligem?
A violência silenciosa ou a que é observada em silêncio, sem dúvida é a que mais me angustia. Silenciosa no sentido mais amplo possível, silenciosa no que diz respeito à tortura, aquela cometida entre paredes, a silenciosa por parte dos espectadores e silenciosa por meio do poder.  Por exemplo, Guantánamo, aquilo para mim é inadmissível e está ali aos olhos de todos, de todo o mundo, de milhões de espectadores em silêncio... é o exemplo da violência em todos os sentidos, por isso fiz o trabalho “Enquanto todos olham a lua”.

- Tem sido muito comentada na Internet uma parceria recente entre Marina Abramovic e Lady Gaga. Como você vê esses cruzamentos entre arte contemporânea e cultura pop?
Penso que se dois artistas se unem isso é bom. Fui ver o vídeo que está na internet com as duas, gostei, não vi nada de negativo, só penso que poderia ser algo novo. Penso que as duas poderiam ter se unido para fazer um projeto juntas. Se fosse famosa, queria muito ter a oportunidade de convidar alguns artistas brasileiros para pensar junto um projeto de arte. Já pensou ter a Rita Lee pensando junto um projeto de artes visuais, um Ney Matogrosso, por exemplo? Esses artistas são maravilhosos em tudo, para mim infinitamente superiores a Lady Gaga - aliás, nem temos parâmetros de comparação, estão em outro nível. Só que Berninha não é Abramovic  e nem conhece pessoalmente essas feras, mas sou fã deles, assim como das musicas de Caetano. Aliás, queria dar à Caetano “Palomo”, pela música “Império da lei”, que fez para o Pará... alguém pode me apresentar Caê? Seria um sonho (risos).

- Relações de poder são ecoadas a partir do teu trabalho. Usando dessa mesma palavra, qual o poder da arte no que diz respeito ao estado das coisas atualmente?
Não sei se a arte pode muito, só sei que é o único instrumento que tenho para protestar contra o que eu penso ser injusto. Espero que a arte consiga alguma coisa, mas tenho minhas dúvidas, pois penso que ela ainda tem um alcance mínimo.

- Em "Americano", você corre segurando uma tocha dentro de um presídio de segurança máxima. Ao final do trabalho, você pendura a tocha no final de um corredor. Há luz no fim do túnel ou a condição humana estaria mais próxima daquele corpo que espera pelo ataque dos urubus?
Você quer saber se sou otimista ou pessimista, né? Eu sou otimista, odeio quem se lamenta, quem fica se vitimizando. Tento sempre reagir, digo sempre que posso ir para a solitária, mas vou gritando, mas sou realista e com essa politica que temos no mundo, com os ditadores tomando o poder em vários pontos do globo, matando milhares de pessoas como estamos vendo no Egito, por exemplo, penso que estamos todos sendo servidos aos urubus “enquanto todos calam”.



(entrevista publicada em versão reduzida na Revista Dasartes, na edição especial de cinco anos em setembro de 2013)

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