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domingo, 15 de setembro de 2013

Cinzas


Na mais recente exposição de Eduardo Climachauska, na Galeria Laura Marsiaj, no Rio de Janeiro, havia a distribuição de um texto de autoria de Samuel Beckett. Tratava-se de um trecho da peça “Fim de partida”, encenada pela primeira vez em 1957. Quatro personagens masculinos estão contidos dentro de um abrigo onde observam a passagem do tempo e reveem suas existências. Todos possuidores de deficiências físicas (cegueira, paralisia e mutilações), conversam e tocam, metaforicamente, a bola desta partida de modo melancólico. Logo nas rubricas introdutórias do texto, na descrição do espaço cênico, encontramos elementos cujos ecos podem ser percebidos na exposição de Climachauska. Beckett diz se tratar de um interior sem mobília e com uma luz cinzenta. Existem duas janelas ao fundo da cena, mas ambas tem suas cortinas fechadas.

A partir da cor da iluminação e desse cerramento para a luz externa destas janelas, creio ser possível se relacionar com os trabalhos selecionados pelo artista para essa exposição. Não à toa, no trecho de Beckett que escolheu, lemos uma discussão em torno da apreensão do espaço externo. Os personagens Clov e Hamm discutem sobre as ondas de chumbo que podem ser vistas através de uma luneta. Um deles pergunta se está escuro e o outro, primeiro diz ver tudo “cinza” (em três vezes seguidas, aumentando a entonação), para logo depois chamar o universo por “preto claro”. Não me parece ser à toa também a possibilidade de se associar os próprios títulos da exposição e do livro; “o fundo do poço” de Climachauska dialoga com o “fim de partida” de Beckett. Troca-se o jogo e sua expansão através de um território para o espaço trancafiado cujo deslocamento se dá de modo vertical.



Na série “Rua Belgrado”, que o artista realiza desde 2000, o espectador é enfrentado por telas de grandes dimensões, ultrapassando os dois metros de extensão. Utilizando matérias como o óleo aplicado diretamente sobre a tela, betume e carvão, temos construções formais que poderiam ser rapidamente rotuladas por “abstracionismo geométrico”, mas cujo dado mais importante para ser a sutil pesquisa cromática. Tal qual em Beckett, Climachauska parece preocupado com os limites entre o preto e o cinza, ou seja, qual o lugar do supracitado “preto claro”? A escala monumental nos convida a perceber de perto materiais num limiar entre o desenho e a pintura.

A materialidade do betume e do carvão, duas técnicas artísticas advindas da extração mineral, se relaciona com as outras presenças tridimensionais dessa exposição. Em “Ho-ba-la-lá III”, um cilindro de mármore é fatiado. Entreaberto, ao seu centro uma pequena estrutura de metal transforma essa escultura em uma espécie de desenho matérico com uma configuração dada através de um cabo de aço que o liga ao teto. Pequenos cubos são dispostos na segunda sala da galeria e ao seu redor estão pinturas também com um fundo negro. Sobre este, porém, no lugar dos contrastes com materiais menos tradicionais da pintura, a opção por fazer linhas que mais parecem rascunhos de polígonos sobre a tela. Há uma desfragmentação da forma aqui que dialoga com o despedaçado cilindro de mármore da sala anterior.

Os únicos elementos maciços e ininterruptos da exposição são estes três cubos feitos com materiais diferentes, a saber, mármore, madeira e ferro. Os mesmos cabos são encontrados acima dessas esculturas, porém com um dado novo. Em cada uma de suas pontas, prumos que dialogam com os materiais desses objetos que, sob esta perspectiva, mais parecem bases expográficas. Objetos de medição, os prumos podem ser usados para se verificar a verticalidade de sólidos ou a profundidade de uma concentração de água. Esse segundo uso parece ser coerente ao título da exposição, “o fundo do poço” que advém do título dessa mesma série de trabalhos. Mantem-se a verticalidade da relação do homem com essa profundidade, mas se retira a perfuração do cabo de aço na abertura da matéria. Não há poços, apenas a certeza do fracasso do prumo em atrito com cubos que não levam a lugar algum.


Como diz o trecho de Beckett, o sol é um “zero”; “dane-se o sol”, diz o personagem Clov junto à sua luneta. Nessa exposição de Eduardo Climachauska apenas há espaço para esse lugar plúmbico entre o cinza e o preto claro. Trata-se, a meu ver, de um comentário que dialoga com a imanência da matéria e com uma apreensão da vida semelhante às rubricas de Beckett quanto ao cenário – tudo é econômico, preciso, sem rebarbas e grandes notas de rodapé. O mármore é mármore, a madeira é madeira e o ferro é ferro. E não poderíamos enxergar nessas relações entre materiais, objetos e sua inércia, o próprio estado físico dos personagens de “Fim de partida”, de Beckett, machucados não apenas em seu corpo, mas também em suas biografias e psiques?

Pensando na relação do artista com a composição musical, especialmente com os sambas, lembrei de uma composição de João Nogueira e Paulo César Pinheiro, “As forças da natureza”. Famosa no Brasil quando cantada por Clara Nunes, a canção narra uma revolta da natureza contra os males do homem. Em seus versos finais diz “as pragas e as ervas daninhas, as armas e os homens de mal, vão desaparecer nas cinzas de um Carnaval”. Tenho a impressão que, justamente na via contrária dessa música, Eduardo Climachauska convida os espectadores para observar a única certeza de um Carnaval, ou seja, suas cinzas, seu fim.

(texto publicado originalmente na ArtNexus de setembro-novembro de 2013)

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