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domingo, 18 de agosto de 2013

Usos da fotografia


No dia 18 de junho foi inaugurada em São Paulo, no Instituto Tomie Ohtake, a exposição “BES Photo 2013”. Como seu próprio nome já indica, se trata de uma exposição voltada para artistas contemporâneos que tem a fotografia como sua técnica central. Financiada pelo Banco Espírito Santo, a mostra acontece primeiramente no Museu Coleção Berardo, em Lisboa. Os nomes selecionados são indicados por um grupo de jurados, sendo que neste ano um deles era Agnaldo Farias, responsável pela curadoria do mesmo centro cultural que abriga o evento.

O BES Photo se configura também como um prêmio em dinheiro para um dos quatro artistas participantes. Desde 2011, visando ampliar as fronteiras de Portugal, a organização do prêmio seleciona artistas atuantes em distintos países e tende a lançar seu olhar para os falantes do português, como o Brasil e algumas regiões da África. A exposição apresentada em São Paulo é curiosa pelo fato de que, diferente de outras edições, todos os artistas selecionados são originários de países falantes do português. Se a língua pode uni-los por um lado, por outro era interessante constatar in loco como a fotografia permite um discurso artístico que é dado de modos bem diversos em suas pesquisas visuais.

Logo na entrada das salas, o trabalho de Pedro Motta recebia o espectador. Sabendo que ele foi o vencedor dessa edição do prêmio, o público tinha um contato já mediado por uma coroa de louros e se debruçava sobre as obras de modo mais crítico. Nascido no Brasil, as imagens criadas por Motta versam sobre a apreensão da paisagem. Não se trata, curiosamente, de um trabalho em que a linguagem fotográfica se coloca no lugar de uma mera documentação do mundo; pelo contrário, me parece que seu trabalho ganha na dimensão em que é capaz de se utilizar de fotografia somada ao desenho e apropriação daquilo que ele registra com sua lente. Sua série de imagens intitulada “Testemunho” me parece dialogar em cheio com suas proposições estéticas: não são fotografias em dimensão monumental, mas sim imagens em formato mediano que recodificam as disparidades gigantes da relação entre homem e natureza. O verde das árvores é absorvido pelo barro da ações destrutivas. Na impossibilidade de um romantismo que poderia visar um retorno a um estágio supostamente paradisíaco desta dualidade, cabe ao artista coletar parte dessa terra e ele mesmo indicar o futuro soterramento destas paisagens através do contraste desses fragmentos tridimensionais e da planaridade de seus registros. Somos, portanto, testemunhas de um “espaço confinado” (título de outra série de imagens), mas que pode ser ficcionalizado através de desenhos de raízes feitos com tinta mineral.



Logo na sala seguinte, Sofia Borges aponta para uma relação quase oposta entre espectador e imagem. Chamavam a atenção as linhas impressas no chão que deixavam clara a necessidade de distanciamento físico entre objeto artístico e público. As largas escalas, por vezes ultrapassando os dois metros de largura, junto ao notável cromatismo de suas fotografias, imprimem uma aura quase pictórica no espaço. O olhar da artista amplia aparentes detalhes advindos de museus e publicações de anatomia e história natural. Sofia Borges transforma em monumento as tentativas de cientificização do mundo mas, mesmo enormes, algumas das imagens suscitam a mesma reação sugerida por aquela linha que impossibilitava uma visão mais próxima dessas impressões. A distância e frieza que encontro nestes recortes fotográficos poderiam ser interpretadas conceitualmente como um afastamento histórico, ou seja, uma mirada contemporânea sobre meios de se pensar a existência humana já obsoletos atualmente? Talvez. De todo modo, é digno de nota o percurso rápido da artista que um dia já foi destaque nessa mesma revista, na seção Garimpo, e que agora se divide entre exposições de grande projeção internacional.

Nas fotografias de Filipe Branquinho e Albano Silva Pereira, um dado ausente na produção dos artistas brasileiros aparece: o corpo humano. O primeiro, nascido em Maputo, capital do Moçambique, investiga os hotéis de prostituição desta mesma cidade. Após dialogar com as fotografadas e pagar por hora, assim como um cliente interessado no ato sexual, o artista penetra nas suas vidas através da sua lente. As imagens oriundas desse encontro ficam num limiar entre a precariedade hotéis e a frágil autoconfiança desses corpos negros que se expõe a todos e a ninguém ao mesmo tempo. Já Albano Silva Pereira retornou à função do fotógrafo viajante que alterava a rotina das cidades devido à novidade que era a fotografia no século XIX. Trazendo essa problemática para o século do digital, o artista demonstra como a fotografia ainda fascina os habitantes de vilarejos espalhados por Marrocos, Mali e o deserto do Saara. Estes dois artistas encaram sem grandes receios o caráter etnográfico de seus trabalhos; e haveria outro modo de se lidar com a representação das camadas mais pobres da África a partir da fotografia, essa mídia já muito sistematizada a partir da ideia de “roubo” da imagem do outro?



Através dessas quatro pequenas exposições individuais, “BES Photo 2013” é capaz de lançar luz sobre jovens artistas brasileiros, além de trazer para o público de São Paulo uma produção fotográfica em torno da África que raramente ganha espaço em museus brasileiros. Mais do que costurar essas poéticas apenas pelo viés do português ou da linguagem fotográfica, fica o desafio para que o público estabeleça relações outras sobre as visões de mundo dessas quatro assinaturas de origens e gerações diversas.

(texto publicado originalmente na Revista Dasartes, na edição de agosto-setembro de 2013)

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