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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Pianinho


Na língua portuguesa, o uso de diminutivos pode acarretar diferentes alterações de significado para as palavras. Colocamos, por exemplo, um “inho” quando queremos reforçar a pequeneza daquele objeto ao qual nos referimos. Por outro lado, também gostamos de colocar esse pedaço de palavra quando queremos demonstrar coisas tão díspares como carinho e desprezo por uma pessoa ou situação. Em “pianinho”, porém, temos uma configuração gramatical que não aponta para um juízo de valor positivo ou negativo dado a partir de um adjetivo. Comumente usamos da expressão “fulano está pianinho” como modo de dizer que certo indivíduo teve uma alteração em um estado anterior.

Essa exposição é, portanto, um convite ao público para, adaptando as palavras da cantora Tulipa Ruiz, “martelar o tempo para se ficar mais pianinho”. Em diálogo com o próprio título dessa composição (“Efêmera”), é possível dizer que os trabalhos de autoria de Bete Esteves e Leandra Espírito Santo reunidos aqui versam sobre a passagem do tempo através de diferentes pontos de vista. Não creio se tratar de uma consciência do andar da carruagem da vida permeado por um tenebrismo propulsionado por uma culpa cristã; parece mais adequado se olhar para a areia de uma ampulheta (ou para o derreter de uma pedra de gelo) pela ótica da ironia, da nostalgia ou mesmo de uma certa potência de perversão típica da infância.



Que os espectadores aceitem esse convite a esse estado (letárgico?) de apreensão do mundo. Nesse ritmo lento, a arquitetura da própria Fazenda da Posse vira uma casa de bonecas e voa pelo céu... adentro ou afora? Independentemente da exatidão das palavras, comtemplemos o vagaroso locomover desses balões, do mesmo modo que um dia transformamos em fotografia nossa observação deitada e anterior ao sono dos raios de luz dentro de um quarto. Diferentes lugares, anos e horários, mas a insistência em transformar o corriqueiro em imagem e, num segundo momento, em arte. Máquinas de costura de brinquedo ganham vida própria e tecem linhas que lembram as tranças de Rapunzel, a jovem bela e enclausurada em um castelo por uma velha feiticeira. Logo ali ao lado, perto de outra janela, um vídeo em que outra senhora tenta com esforço acertar uma linha dentro de uma agulha de costura. O vermelho dos cabelos de costura e o preto-e-branco em stop motion – uma fábula, uma coincidência ou uma narrativa expográfica?

Estranhar e reencenar o banal parecem as ações centrais tanto dos trabalhos dessa exposição, quanto de seu projeto gráfico. Esculpido durante o Renascimento, esses oito centímetros de bronze estão no limite entre a imagem de um caracol e a de uma concha do mar. Na ansiedade por dar uma forma a tudo que nos circunda, o anônimo artista optou por substituir sua habitual carapaça traseira por algo lá do mar. Superfície e fundo se transformam numa coisa só e criam um ser híbrido. A partir dessa peculiaridade, ainda nos resta a lentidão como força-motora para criar e fruir o mundinho ao nosso redor.




(texto curatorial da exposição "Pianinho", de Bete Esteves e Leandra Espírito Santo, no Centro de Cultura Fazenda da Posse, em Barra Mansa (RJ), aberta entre 9 de agosto e 15 de setembro)

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