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quinta-feira, 13 de junho de 2013

Artesanato




Anna Maria Maiolino foi uma das vencedoras do recém-criado Prêmio MASP Mercedes Benz e, como parte do resultado, teve a oportunidade de realizar uma exposição no museu. Com uma trajetória iniciada na década de 1950, quando ainda residia na Venezuela, a artista ganhou bastante atenção da crítica especializada devido à sua participação na última edição da Documenta, no ano passado. Ao realizar uma grande instalação com argila dentro de uma residência no parque Karlsaue, em Kassel, a artista deu prosseguimento à sua pesquisa iniciada nos anos 90 com sua série “Objetos escultóricos”. Se o público esperava ver trabalhos semelhantes ou adaptações nesta nova exposição no MASP, muito se enganou.

O espaço era dominado pelo tom preto das paredes e do chão. Esse caráter obscuro contribuía com o importante destaque dado às projeções de obras produzidas em vídeo e outras transcodificadas a partir do super-8. Um de seus trabalhos mais famosos, “In/out (antropofagia)” (1973/74), recebia o espectador com suas bocas monumentais. O batom que cobre os lábios confunde nossa percepção; seriam um homem e uma mulher? Ao mastigar e mostrar os dentes, acompanhada por um som vertiginoso, fios são ejetados e engolidos. Estas linhas remetem a outro importante trabalho seu, “Por um fio” (1976), em que fazia uma árvore genealógica fotográfica através da justaposição de três gerações de mulheres: sua mãe, sua filha e a sua própria imagem. Ao lembrarmo-nos da biografia da artista e de seu fluxo geográfico entre uma origem italiana e seus percursos latino-americanos, não poderíamos, portanto, enxergar em sua poética uma reflexão antropofágica sobre a noção de identidade cultural - não através do documento e do arquivo, mas pelo corpo e por uma via mais existencial?




A presença de ovos em alguns de seus outros trabalhos parece contribuir com essa aproximação e uma leitura possível por chave surrealista. As mãos de Paulo Herkenhoff e Bruno Tauz, como num jogo de futebol, brincam com esses pequenos depósitos de vida acima de uma mesa em “+ - = -“ (1976), outro filme super-8. Sem vencedores anunciados nessa disputa, essa alegoria da origem fica sem um lugar fixo, de lá para cá, deslocada entre as fronteiras fictícias de uma mesa. A superfície onde se partilha o alimento é transformada em ringue. Seu caráter religioso também é ecoado em uma imagem da série “Fotopoemação” (2010). O Cristo pintado por Leonardo da Vinci na Santa Ceia tem sua superfície deteriorada contrastada com a inserção digital de ovo e prato intactos. Sem a possibilidade do desaparecimento, o ovo aqui pode ser encarado como uma alegoria da tradição clássica. Já em outra fotografia da série “Vida afora” (1981), esse personagem oval se encontra à espreita do que parece a abertura de uma janela. Entre permanecer no espaço interno e explorar o que há lá fora, a incerteza de seu destino devido à sua frágil estrutura é mais uma vez indicada.






Um elemento parece unir esta série de trabalhos de diversos momentos de sua carreira: o apelo à apreensão dos pequenos detalhes do mundo através da fisicalidade. Destaque é dado ao tato; é ele o responsável por tentar perceber os relevos das cópias fotográficas de esculturas em “À flor da pele” (2009) e “Em partes” (2010). Enquanto isso, em outra parte de sua produção audiovisual, o olhar da artista se detém sobre a expressividade das mãos. Elas são as protagonistas de “Ad hoc (a propósito)” (1982). Se na imagem elas se movimentam rapidamente e criam um inventário de formas fundidas, no campo do som uma sobreposição de textos confunde o espectador. As linhas da mão são tão enganosas quanto as rugas de um rosto. Em “Quaquaraquaqua” (1999/2004), o próprio corpo da artista parece ser colocado em primeiro plano e podemos acompanha-lo a preparar um alimento dentro do seio doméstico. A mão que domina a panela está atada à boca que cantarola a música eternizada por Elis Regina. Estes lábios, por sua vez, estão conectados a uma câmera subjetiva que substitui seus olhos e passeia pelo cenário.

Este modo de ver o mundo em detalhe é uma constante na produção de Anna Maria Maiolino e me parece ficar bem delimitado no próprio título atribuído a uma das suas séries fotográficas: “Fotopoemação”. Trata-se de uma articulação entre imagem, palavra e corpo; fotografa-se, diz-se e movimenta-se. Visão, audição e tato estão atados a isso que chamamos por humano. Se não encontramos nessa exposição os mesmos trabalhos apresentados em Kassel, é inevitável que seja possível estabelecer relações. Na ausência da tridimensionalidade baseada na argila, a representação bidimensional do elemento escultórico por excelência, a carne humana. Na falta das pequenas dobras destes cilindros de cerâmica, as curvaturas da boca, dos dedos e de um olhar instável. Saem os pequenos casulos esculpidos pelas mãos da artista, aparecem esses insistentes ovos.




A pesquisa artística de Anna Maria Maiolino, por fim, gira em torno de um artesanato da vida. Se, por um lado, trata-se de uma retrospectiva pautada em imagens técnicas capturadas, aprisionadas e gravadas pela fotografia, pelo vídeo e pelo áudio, por outro todas elas nos remetem à dimensão do intercâmbio entre corpos. Como um dos trabalhos mostra muito bem, vivemos um momento da História em que cada um de nós está sentado em uma cadeira portando um fone de ouvido. Conseguimos observar o outro indivíduo que fica à nossa frente, mas uma grande mesa de madeira impossibilita nosso contato. Apenas nos resta, então, mirar o próximo como se analisa um alvo.

(texto publicado originalmente na ArtNexus de junho-agosto de 2013)

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