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terça-feira, 2 de abril de 2013

Ministro do tempo





No último trimestre de 2012, foi realizada no Paço Imperial, uma retrospectiva do artista carioca Roberto Magalhães. Realizou-se esta mostra a fim de se refletir sobre sua produção artística que fazia aniversário de cinquenta anos, visto que sua primeira participação no circuito da arte se deu em 1962. Batizada por “Quem sou, de onde vim, para onde vou”, a exposição trazia em seu título uma referência a uma obra de Paul Gauguin, de 1897, intitulado “De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos?”. As idades do homem são problematizadas através de figuras de mulheres inseridas em uma paisagem do Tahiti. Da direita para a esquerda vemos a infância, a vida adulta e a proximidade da morte.

Roberto Magalhães, enquanto isso, adapta o título do quadro de Gauguin para um pastel sobre papel em que uma figura humana é protagonista. Inexiste aqui, porém, a frontalidade da face. A solidão de um homem que traja, aparentemente, um terno é delineada pela economia cromática. Após vermos suas costas, temos a bifurcação de seu rosto; metade para a esquerda, metade para a direita. Não existe uma linha reta e o campo da certeza na produção de imagens de Magalhães, mas, antes disso, um convite à dúvida e apreciação mais curvilínea de sua poética.


É interessante constatar, de todo modo, como o título desta retrospectiva ecoa, esta outra pintura que visava fazer um esquema temporal da existência humana. No Paço Imperial, porém, a cronologia não era o elemento que unia os cerca de cento e setenta e quatro desenhos que foram garimpados a partir de um total de mais de três mil. O primeiro critério foi material – todos os trabalhos expostos foram realizados sobre papel. Fazia-se interessante constatar a versatilidade do artista junto a esse instrumento de experimentação e os diversos resultados obtidos desde materiais tidos como mais nobres, tal qual o pastel, a outros mais banais como as canetas esferográficas.



Além do papel, o outro elemento que dividia a exposição em pequenos blocos era a proximidade formal e temática de sua produção. Interessante perceber, portanto, no lugar de serem pensadas “fases” do artista que poderiam ir de suas primeiras experimentações a essa costumeira ideia de “maturidade artística”, fruíamos, em contrapartida, recorrências poéticas. Dentre as diversas dignas de nota, a que mais saltava aos olhos era a utilização do rosto humano. Alongado, fragmentado através de grande cromatismo ou reconstruído através da paisagem, Roberto Magalhães parece ter o sujeito da frase que nomeia sua exposição como força motora – o eu.

A constância dos traços masculinos utilizados pelo artista e sua proximidade com os assumidos autorretratos presentes na exposição, nos levam a pensar que há uma espécie de questionamento da natureza humana através do embate com seu próprio reflexo. Para tal, pensando através da história da arte, é possível aproximá-lo de diferentes correntes estéticas advindas do chamado modernismo, como, especialmente, o surrealismo e o cubismo. Se através do primeiro podemos ler uma recomposição do rosto através de estranhezas que lembram Magritte, junto à lembrança de Picasso podemos apreender de outro modo a capacidade de Magalhães fragmentar e tornar claros os contornos geométricos de humanos, objetos e paisagem. De todo modo, longe dos manifestos vanguardistas e do autoritarismo da escrita, essa reunião de imagens e o modo como o artista se locomove entre diferentes resultados finais acaba por aproximá-lo, creio, com uma pesquisa artística mais próxima à
pop art e suas inteligentes apropriações das realizações ainda recentes da primeira metade do século XX.

Outra vertente interessante em sua produção diz respeito a imagens que possuíam certo caráter emblemático. Em “Capricórnio”, por exemplo, de 1972, a partir da imagem de uma montanha vemos nascer dois chifres. Ao fundo, como a coroar a imagem, uma representação de saturno com seus anéis. Abaixo, completando uma construção formal com pitada de cartaz publicitário, gélidas montanhas e uma enguia a flutuar. O desenho que na exploração do rosto humano beira o humor, aqui ganha o tom de uma gravura astrológica. Se o corpo humano está ausente, a ânsia por dar sentido ao existir se torna, talvez, mais potente. Este esforço que se encontra no limite entre a ciência e a alquimia é endossado por frases e nomes próprios em latim que apenas contribuem com a aparente certeza de definição dessas alegorias zodiacais.

Essas características nos levam a outra importante característica de sua produção que já estava contida no início desta análise: a relação entre texto e imagem. Se muitos de seus desenhos tendem ao humor ou a uma estranheza que deixam claro o caráter aberto por parte da interpretação do espectador, é nos títulos que somos convidados a ler suas imagens através de um trilho ainda não pensado. Em um desenho de 1976, somos surpreendidos por olhos, nariz e boca que foram rotacionados em noventa graus, mas ainda permanecem dentro do contorno de uma cabeça. Ao lermos seu título, “Ministro do tempo”, voltamos à imagem e podemos encará-la à luz dos ponteiros de um relógio.

Esta interpretação pode ser ampliada, creio, para a exposição como um todo. Temos à nossa frente a produção de um “ministro do tempo” capaz de conduzir uma pesquisa artística obcecada pelo desenho e pela narrativa por mais de cinquenta anos. Mesmo assim, joga ao espectador e ao crítico a incapacidade de enquadrá-lo através de apenas uma via de acesso. Assim como um relógio, muitas são as posições dos ponteiros da carreira de Roberto Magalhães.



(texto publicado original na revista ArtNexus de março-maio de 2013)

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