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quinta-feira, 21 de março de 2013

Lar, estranho lar



Encontro-me nesta fascinante e estressante experiência de mudar de casa. Se empacotar objetos e colocar dentro de um caminhão de mudanças é algo que fica entre a despedida e o cansaço físico, já adentrar um espaço até então vazio é a oportunidade de se atribuir novo sentido a um cubo branco domiciliar. Depois de tudo colocado em seu devido lugar, um elemento ainda saltava aos olhos: em torno dos bocais para lâmpadas e das sancas, uma série de relevos com padrões geométricos.

Meus estudos como historiador da arte rapidamente sugerem uma interpretação estilística, tal qual dizer que se trata de uma “decoração com pitada de rococó”, por exemplo. De todo modo, as palavras não dão conta da estranheza desse dado. Por que o proprietário deste apartamento tomou essa opção estética? Mais do que isso, a partir de qual momento de uma história das imagens esse objeto passa a ser carregado por este rótulo rápido e parece fazer sentido dentro de uma vontade de decoração espacial?


Lar, estranho lar. Estranhar o corriqueiro me parece ser também um elemento chave dentro da pesquisa artística de Renato Pera. Podemos partir da apropriação da estranha espacialidade da imagem “infraganti”. Se uma mulher chora e é retirada de dentro de um armário-esconderijo, enquanto seu possível amante é imobilizado por policiais, uma cadeira repousa sobre o chão. Este elemento visual parece ter um caráter mais alegórico do que utilitário; o punctum desta narrativa diz respeito à queda e fracasso de uma relação humana.

A cadeira, este objeto dissecado pelos mais diversos autores, de Platão e sua teoria do simulacro a Kosuth e sua obra-chave da chamada “arte conceitual”, é reutilizada por R. Pera em uma série de imagens e vertida em fantasma. Ela pode ser tanto um trono para um Tirésias vertido em Deneuve quanto uma metáfora para a recusa ao sentido ilustrativo de muita da produção contemporânea de arte. Aqui o espectador é colocado em uma posição de xeque em que, partindo da retina, volteará sobre os cômodos silenciosos deste espaço expositivo que tem uma casa no seu nome. Não há sucesso ou fracasso nesse contato entre homem e objeto, mas apenas seu próprio convite.



Neste sentido, parece ser possível aproximar os trabalhos desta exposição com as imagens criadas por Max Ernst, artista que sempre aparece nas minhas conversas sobre arte com Renato. Citando as palavras de Argan quanto ao artista alemão, “ não é o sonho que cria a imagem, e sim o inverso: se desenvolve no quadro por meio de um jogo complexo de associações alógicas”. Creio que nas imagens aqui apresentadas, esta frase também possa ser atribuída. Parte-se da experiência concreta, daquilo que o próprio Argan chama de “detritos da cultura burguesa” para se criar imagens que poderiam ser lidas, ao menos inicialmente, a partir de uma chave onírica. Percorrendo o espaço e esbarrando na repetição de certos elementos visuais, podemos apreender uma estrutura narrativa não-linear.

Outro objeto aqui apresentado me parece endossar essa leitura em diálogo com o surrealismo. Reinando sobre uma sala está uma janela com basculantes. Se toda a tradição da pintura no ocidente, ao menos desde o século XIV, é pautada na aceitação ou recusa da tela como continuação do espaço interno, tal qual uma janela com sua perspectiva, esta aqui apresentada não é dada a nenhuma contemplação para além dela mesma. Entreaberta, estática, quase um ídolo pedindo a adoração do público e lembrando ao espectador sobre o próprio sagrado ato da observação, ela nos obriga ao confronto de sua literalidade. Ao mesmo tempo me pergunto: se esta janela não estivesse alavancada ao estatuto de arte, mas fosse um dado arquitetônico da própria galeria, manteríamos nosso olhar concentrado por muito tempo?

Suponho que não e baseado nesta crença aproximo estes objetos artísticos aqui reunidos ao estranhamento diário de habitar um espaço novo. Sentado perante um computador e vendo camadas de objetos organizados atrás dele, começo a pensar sobre a lógica que imprimi a isto que agora chamo de lar. Ordem e sentido inexistem nas coisas por si próprias, sendo atribuídas por aquele que habita ou, como no caso de qualquer texto, pelo autor.



Por essa trilha creio que a produção artística de Renato Pera incite justamente um deslocamento do mundo pragmático a fim de que o público, a partir da potência destas imagens, crie suspeitas. Estas podem se converter em narrativas ou não – o importante, me parece, é sairmos de nossos locais seguros. Ao fim, na ausência de certezas dentro da galeria, apenas nos restará a vaga confiança no cair de toda a tarde acima de nossas miúdas existências.

(texto produzido para a exposição "O cair da tarde", de Renato Pera, realizada na Casa Contemporânea, em São Paulo, entre 22 de março e 27 de abril)

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