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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Lampejo



Ao percorrer os olhos sobre o trabalho de Felipe Abdala, dois dados chamam a atenção. Em primeiro lugar, temos a presença do desenho. A utilização do lápis, porém, não denota nenhuma aparente vontade de mimetizar o mundo e o corpo humano; o traço parece querer ser traço. Em uma parede, um conjunto de pontos o constitui, ao passo que ao seu lado a linha é constituinte de diferentes formas. Poder-se-ia falar sobre abstração numa leitura à chave dos escritos de Kandinsky, mas parece mais convidativo seguir as palavras do próprio Abdala quando diz que “ser um é ser muitos”. 

Desse anseio por outras interpretações surge o segundo ponto anunciado: a verticalidade. Em “Primeira resistência”, o empilhar de pontos sobre o papel gera uma linha. O resultado final não é estritamente vertical; estas leves curvas poderão evocar a sinuosidade da coluna vertebral. Se trinta e três vértebras podem deixar um humano ereto, 2704 pontos, por exemplo, criam uma coluna de lápis 2B. Cada espécie se ergue a partir de um número diverso de pontos, assim como cada edifício projeta uma sombra diferente no espaço urbano.




Por uma apreensão mais arquitetônica dos trabalhos, fileiras de linhas sustentam imagens de quadrados, assim como agrupamentos de colunas sustentam habitações. Se o mais famoso quadrado preto da história da arte, de Malévich, quase cem anos após sua realização, está todo craquelado, o artista aqui já prenuncia o passar do tempo dessas formas suspostamente perfeitas; um olhar mais próximo possibilita enxergar as diversas camadas de desenho intercambiadas.

Dessa tríade ponto-linha-forma o trabalho de Felipe Abdala poderia ser circunscrito a uma espécie de teoria dos conjuntos. Também é possível pensar, creio, a partir do elemento que constitui esse campo semântico: dar forma, construir e, por consequência, criar. Com isso, essas verticalidades podem ser enxergadas de modo menos histórico-artístico ou matemático; e se fossem relâmpagos? E se essas linhas imperfeitas fossem encaradas como reflexões sobre a própria disciplina necessária ao processo criativo, tijolo sobre tijolo, constituindo um todo que, ao olhar romântico do público, podem ser vistas como reflexos de um lampejo criativo?

Na iminência da dúvida, sigo com a leitura romântica. 



(texto sobre a exposição "Resistir não é mudar", de Felipe Abdala, na Casamata, no Rio de Janeiro, entre 22 de novembro e 22 de dezembro - a ser publicado em catálogo da Casamata no prelo)

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