Páginas

sábado, 3 de novembro de 2012

Catarata



Quando pensamos em submeter uma proposta para a NUVEM – Estação Rural de Arte e Tecnologia, situada em Visconde de Mauá, no estado do Rio de Janeiro, uma preocupação imediata nos tomou: o que encontraríamos no espaço da cidade? De quais modos poderia ser pensada uma proposta que dialogasse diretamente com o entorno da residência? Nossa busca remeteu a um elemento de paisagem natural: cachoeiras.

Ao se buscar no meio virtual algumas informações sobre a cidade, não são poucos os websites que frisam seu caráter turístico devido às suas quedas d’água. Com isso tínhamos um ponto de partida: porque não explorar esses fenômenos da natureza, tão celebrados no campo das artes visuais desde a tradição clássica? Quedas d’água por muitas vezes foram comentadas como manifestações da natureza em estado selvagem. Não à toa, célebres nomes lançaram seu olhar para esses monumentos naturais – Leonardo, Jacob van Ruysdael e William Turner são apenas alguns a serem lembrados de modo rápido.


 No Brasil, especificamente no Rio de Janeiro, há um famoso exemplo pictórico de cachoeira. Trata-se da “Cascatinha da Tijuca” (1816-1821), pintada por Nicolas-Antoine Taunay. Integrante da chamada Missão Artística Francesa, o artista francês, tal qual, por exemplo, Jean-Baptiste Debret, se empenhou em representar através de seus quadros aquilo que na visão de um europeu do século XIX caracterizava a capital do ainda império. Não à toa, surpreso com a exuberância tropical, acaba por se destacar como pintor de paisagens. Como todo construtor desse tipo de imagens, Taunay sempre escolhia um ponto de vista e o recodificava em uma série de pinceladas abstratas que lado a lado eram (e ainda são) interpretadas como um espelho da realidade. Como toda pintura, porém, não passam de ficções; não há ali a queda d’água tijucana, mas sim, traços, cores, pigmentos e uma perspectiva ilusória. Nem mesmo se fotografia fosse, a imagem seria capaz de substituir a experiência de se estar à frente das águas.

O projeto “Ao ar livre”, portanto, me parece uma espécie de desconstrução desse princípio pictórico. No lugar de se imortalizar uma vista se pretendeu, justamente, “destruir” uma representação aos olhos do espectador. Através da linguagem do vídeo, se escolhe, primeiramente, tal qual Taunay, um ângulo para se erguer esse monumento à manifestação da natureza. Enquanto gotículas d’água são percebidas no que parece ser a lente, uma mão pequena titubeia e dá suas primeiras pinceladas. Aos poucos percebemos que aquela que pinta, a própria artista, tenta dar conta de preencher o espaço enquadrado.

Sim, tal projeto de preenchimento é tão falacioso quanto acreditarmos que ao olhar as imagens de paisagem do século XIX estamos a ver um “retrato da natureza”. O trabalho de Mariana Katona Leal me parece, então, versar sobre a constatação dessa impossibilidade. Com a consciência da camada ilusória de qualquer imagem, só nos resta lidar com esse fato e frisá-lo aos olhos do público. Com isso, portanto, a imagem pintada se deteriora do mesmo modo que foi ali colocada. Lentamente temos duas quedas d’água: uma ao fundo e outra sobre a superfície de vidro que aqui ganha ares de tela.


Tentando enxergar esse ato de modo mais metafórico, é inevitável a recordação dos caminhos andados por Visconde de Mauá a fim de se chegar a estas cachoeiras. Se alguns destes espaços eram muito bem indicados por placas e tomados por turistas, como pode ser visto em alguns dos vídeos, outros eram solitários e com tom maior de bucolismo. Pés ficaram cansados, caronas foram necessárias e estranhas coincidências completaram os dias. Quem diria que um casal em torno dos sessenta anos, pai de um conhecido deste que escreve, também estaria na cidade? Quais eram os seus nomes? Perderam-se com o secar do tempo, assim como as placas de vidro que foram pintadas pelas mãos da artista, a cada dia que passam ficam mais próximas do apagamento.

Penso nos trajetos que estes homens anteriores à invenção da eletricidade fizeram dos então centros urbanos até esses espaços geralmente reclusos com estas cataratas. Mais do que isso, penso na própria palavra “catarata”. Pela primeira vez me vem à mente como ela designa tanto esse fenômeno que se choca com nossos corpos, como a doença que atinge a visão. Por esse viés, o trabalho de Mariana Katona Leal ganha uma outra leitura; a artista imprime, então, uma catarata sobre outra.

Nossa visão fica turva, assim como o tempo embaça nossas memórias. O que um dia fez sentido se perde. Paisagens se esquecem, relações humanas se dissolvem, a pele derrete. Enquanto isso, algumas pinceladas estão ali, lutando por persistir, mas conscientes de seu breve fracasso.