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sábado, 13 de outubro de 2012

Aqui é arte





2012. Podemos lembrar das duas décadas de abertura para a entrada de estrangeiros em Ekaterinburg. Importante centro industrial na História da Rússia, a área foi considerada por algumas décadas como espaço de importantes segredos de estado e, portanto, a circulação de não-russos era proibida. Ironicamente, na segunda edição da bienal que tem “industrial” em seu nome, tivemos a oportunidade de organizar uma exposição que coloca duas geografias diferentes lado a lado.

Nascido em 1977, é possível afirmar que andar é o instrumento principal da pesquisa artística de Paulo Nazareth. Em 2011, o artista realizou um trajeto entre Brasil e Nova Iorque, passando pela chamada “América Latina”. Durante seis meses, Nazareth teve a fotografia e o video como parceiros e realizou alguns registros dos seus encontros com outros indivíduos. Quando chegou nos Estados Unidos da América, lavou seus pés no Rio Hudson. Que fatores distanciam a nação intitulada “unida” das muitas outras Américas? Poderíamos listar muitas razões como a geografia, a economia e a política. O que Paulo Nazareth parece frisar, por outro lado, é o que nos aproxima, ou ao menos deveria aproximar – o fator humano.





Enquanto Nazareth nascia, Bukashkin estava em efervescente produção artística. Se aproximadamente quarenta anos separam suas datas de nascimento, o mesmo não pode ser dito das imagens que produziram. Autorretratos estão presentes em ambos os trabalhos – no primeiro, através da fotografia e pela via da pintura no segundo. A escrita é outro elemento essencial. Bukashkin era um poeta e organizou livros de artista em que a relação entre imagem e texto é muito importante. É nesse viés que a alteridade fica clara em seu trabalho – através de diferentes esforços para transformar seus poemas em imagem, ele e pessoas sem formação artística colobararam.

Qualquer um de nós pode ser artista. Essa capacidade parece ser latente nos trabalhos de Bukashkin e Nazareth. São trabalhos sobre ampliar o conceito de arte para além das belas-artes. Objetos coletados na rua podem ser vistos através de um olho estético. Como Paulo Nazareth diz em um de seus panfletos, “Aqui é arte” – eu sou arte, você é arte, nós somos arte, eles são arte. Torçamos que esse encontro, mesmo que virtual, entre duas forças, possa se tornar arte também. Que novos cruzamentos entre Brasil e Rússia, esses dois distantes países-continentes, mas ao mesmo tempo tão próximos, possam proporcionar mais colaborações que celebrem a delicada arte de se viver junto.

[e que a cada dia mais brasileiros andem na Rússia e russos caminhem pelo Brasil] 




(texto curatorial relativo à exposição coletiva "World citizens", realizada entre 13 de setembro e 25 de outubro nao B.U.Kashkin Museum, na Ural Federal University, em Ekaterinburg, na Rússia)

[artistas participantes: Old Man Bukashkin e Paulo Nazareth]

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