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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Vanitas fotografada: considerações sobre fotografia e morte

Texto publicado na ANPAP em setembro de 2012. Realizado em co-autoria com Maria Berbara.



Resumo: O presente artigo versa sobre a relação entre o campo das Artes Visuais e o tema da morte. Após uma breve introdução sobre os modos como esta relação se deu na tradição clássica, serão analisados os trabalhos de quatro artistas contemporâneos que lidam precisamente com a conjunção entre morte e fotografia, a saber: Robert Mapplethorpe, Joel-Peter Witkin, Aline Dias e Pedro Victor Brandão.




domingo, 23 de setembro de 2012

Linha aparente



Ao buscar no dicionário uma definição para a palavra “horizonte”, este nos indica ser a “linha aparente ao longo da qual, em lugares abertos e planos, observamos que o céu parece tocar a terra ou o mar”. Trata-se de uma denotação que afasta a linha de seu lugar tradicional de contorno de formas e a transforma em esfumada substância; em vez de delinear um espaço, o desenho se caracteriza por ser o próprio espaço.



Mais do que uma linha do horizonte, talvez possamos dizer que a linha é o horizonte. Da sua apreensão e da impressão de limite, de “fim” de um espaço aberto, outra linha horizontal foi encontrada: a linha da vida, a timeline de cada de um de nós e, porque não, a horizontalidade que corta toda cruz. A morte, portanto, se faz presente – e não nos esqueçamos de que todo caixão é arquivo a sete palmos de modo também horizontal. Uma linha retilínea e com a mesma configuração é aquela que permite que as palavras tenham solo e não estejam numa queda livre sobre o papel; as pautas também são de interesse nesta reflexão. 



Paisagem, desaparecimento, escrita e desenho caminham lado a lado dentro desta curadoria que, assim como qualquer exposição, cria um novo horizonte. Não se pretende, porém, limitar o campo visual do espectador, mas sugerir múltiplos pontos de fuga junto aos trabalhos de onze artistas contemporâneos que, no lugar da segurança ilusória da perspectiva, desenvolvem seus processos artísticos tendo a incerteza e o risco como alguns de seus nortes.



(texto curatorial relativo à exposição coletiva "Linha aparente", realizada entre 17 de julho e 25 de agosto na Sérgio Gonçalves Galeria, no Rio de Janeiro)

[artistas participantes: Cezar Bartholomeu, Clarissa Campello, Daniel Caballero, Daniela Seixas, Luciano Boletti, Mariana Katona Leal, Mayana Redin, Mayra Martins Redin, Renato Pera, Sofia Caesar e Tales Bedeschi]

domingo, 16 de setembro de 2012

Fábulas de Américas



Muitos são os modos possíveis de se escrever a História do continente americano. Poder-se-ia, por exemplo, partir de seu “descobrimento” durante o Renascimento ou enfocar nos movimentos de independência do domínio europeu. É da reflexão sobre estas diferentes narrativas que parece partir a pesquisa artística de Paulo Nazareth. Sua primeira exposição individual na Galeria Mendes Wood, em São Paulo, é intitulada “Notícias de América”. Importante ter em mente que não se trata de uma notícia apenas; as narrativas aqui não advêm apenas da América, mas versam sobre o continente. Partindo em março de 2011 de sua cidade natal, Santa Luzia, em Minas Gerais, no interior do Brasil, o artista realizou um trajeto que tinha Nova Iorque como destino. Os aviões foram substituídos por uma poética andarilha: portando sandálias Havaianas (este objeto já inserido em um estereótipo de brasilidade), Nazareth atravessou a diversidade cultural da América a pé, de ônibus e barcos, coletando materiais e produzindo vídeos e fotografias que estavam à mostra nesta exposição.

Em um pátio interno da galeria, entre árvores e plantas, encontramos algumas redes dependuradas. A preguiça, em resistência à correria do mundo, recebe o público. Dentro do espaço expositivo, notamos algumas mesas distribuídas de modo irregular, compostas pela assemblage de madeira e papelão de origens diversas. O artista oferece ao público uma espécie de museu de apropriações. Ao caminhar devemos tomar cuidado: objetos estão espalhados também pelo chão e podemos, sem querer, pisar sobre a arte contemporânea.

Sobre as mesas encontramos, por exemplo, pilhas de moedas, sabonetes, animais de plástico, bandeiras e recortes de jornal. Estes objetos se encontram lado a lado e frisam suas distintas origens geográficas. Um desses suportes se destaca por apresentar um grande agrupamento de rótulos de garrafa d’água distribuídos de modo sobreposto. A semelhança das palavras encontradas chama a atenção: “fresca”, “cristal”, “oásis” e “natural” são nomes que aparecem mais de uma vez e em diferentes embalagens. Com isto, Nazareth organiza um atlas metafórico que se recusa a dividir a América de modo convencional, ou seja, em continente do Norte, Central e do Sul. Este mapa construído pelo artista resulta de seu encontro com o inesperado dado pelo seu caminhar e seu colecionismo de objetos precários. A presença da água nesta instalação faz lembrar a ação final realizada pelo artista na sua chegada em Nova Iorque: após ficar seis meses sem lavar os pés, acumulando a “sujeira da América”, Nazareth os lava no rio Hudson, importante curso de água que corta parte dos Estados Unidos da América. Desse modo, a poeira da América Latina é transportada e lançada na hidrografia norte-americana, recodificando de modo poético e efêmero as diferenças culturais e socioeconômicas presentes no mesmo continente americano.




Nas paredes da galeria, além de cartazes também coletados e que endossam a experiência etnográfica de sua viagem, alguns autorretratos fotográficos estão presentes. Neles, o artista posa para a câmera e ostenta placas com textos semelhantes ao de um anúncio. “I clean your bathroom for a fair price”, diz um deles, onde se pode ver, ao fundo, a bandeira dos Estados Unidos. Em outra fotografia, sentado ao lado de um homem que esconde seus olhos com um boné em que está impresso “FBI”, Nazareth escreve “Llevo recados a los EUAmerica”. Impressas em pequena escala, estas imagens partem de uma retórica do autoexotismo que perpassa a exposição. No lugar de negar o passado colonial e sangrento dado pela colonização espanhola e portuguesa na América, o artista parece recordá-lo a todo o tempo através da utilização dessas frases que são o somatório de uma visão ácida e irônica perante o presente, mas também coerente com o conhecido fluxo imigratório rumo ao Norte.

Os objetos mais complexos da exposição, porém, são os vídeos projetados em monitores que, inseridos na extensa quantidade de objetos espalhados pelo espaço expográfico, perdem um pouco de sua potência visual. Neles, a busca por uma identidade cultural se faz de modo menos óbvio - sabemos que são registros realizados durante a experiência artística andarilha de Nazareth, mas estas imagens se sustentam de modo mais existencial. Em “Cuando tengo comida em mis manos”, pássaros tentam pegar pedaços de pão jogados por suas mãos. A timidez dos animais dá lugar, rapidamente, a uma nuvem de aves que anseia por comida; o artista se aproxima do demiurgo.

Nestes objetos audiovisuais, no lugar de apontar sua câmera para os homens infames da América, Nazareth cria narrativas de sua aproximação com a natureza. Não se trata de domesticar o homem ou a paisagem com a fotografia, o texto ou um pequeno gabinete de curiosidades, mas criar, como o título da exposição diz, “notícias” (notas fabulosas) que tem a América e sua diversidade como estopim. O continente americano é colocado no plural e a arte é capaz de apresentar as muitas Américas fictícias inseridas na mesma América.

http://www.youtube.com/watch?v=K2MA2iJ7wGU


(texto publicado original na revista ArtNexus de setembro-novembro de 2012)

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Agir



“Eu sou gay” – sujeito, verbo e orientação sexual em três palavras. Se hoje podemos iniciar um texto com esta frase, o livro “Eu, Pierre Seel, deportado homossexual” [Rio de Janeiro, Cassará, 2012] nos traz um relato de um momento adverso à aparente liberdade que a contemporaneidade proporciona. Publicado na França em 1994 e escrito com a ajuda do ativista Jean Le Bitoux, o livro se trata da autobiografia do homem que dá título à obra e tem como enfoque primeiro a sua relação com a homossexualidade e a repercussão social no período da Segunda Guerra Mundial.

Como a suástica rosa da capa da publicação mostra, esta escrita gira em torno da condenação de homossexuais aos campos de concentração nazistas. Pierre Seel possuía em sua ficha policial na cidade francesa de Mulhouse, na Alsácia, uma ocorrência acerca da perda de um relógio em um local onde era sabido que homossexuais flertavam. Durante a invasão alemã, portanto, ele é preso e enviado a um campo de concentração em SchirmeckSeus relatos, majoritariamente, descrevem os acontecimentos que sua memória ainda guardava de modo vívido com cerca de sessenta anos de espaçamento. O cotidiano de um campo de concentração, a humilhação, a sensação de ser empurrado e obedecer a ordens de modo involuntário são elementos centrais à sua fala, sempre tomados por questionamentos existenciais. O Seel jovem é sobreposto e se funde ao idoso que amargamente se vê a recorrer a uma nostalgia de chumbo.

Finito o regime fascista, retornando ao solo francês e na tentativa de erguer uma nova biografia que apagasse seus traumas da guerra, Seel constrói uma família. Casa-se com uma mulher, tem filhos e vive, como diz o título de seu quarto capítulo, “os anos de vergonha”. Qualquer esforço para ocultar sua homossexualidade era pouco e, segundo sua escrita, a depressão e inércia atingem seu corpo. Após se enxergar sem os membros da família ao seu redor, constantemente embriagado e rodeado de fantasmas do nazismo, ele esbarra, de modo torto, com um debate acerca da relação entre homossexualidade e nazismo em uma livraria. A audição de uma narrativa da História que perpassava a sua própria biografia acende uma luz no autor e alimenta a sua vontade da fala na primeira pessoa do singular. Entre as décadas de 80 e 90, ele se coloca a escrever e proferir palestras sobre o que viu e velou nos campos de concentração e na inserção dos homossexuais na sociedade francesa durante o século XX.

Ao finalizar a leitura deste livro, veio à mente uma pintura de Keith Haring, artista norte-americano de produção extensa durante o final do século XX. Três pictogramas típicos da produção de Haring se movimentam e ocupam a faixa central da imagem. Um tampa o que seriam seus olhos, ao passo que ao centro as mãos tampam orelhas e, por fim, a outra figura cobre a boca. Três frases estão presentes também. “Ignorância = medo”, “Silêncio = morte” e “Lute contra a Aids. Aja”. Um triângulo rosa ganha notoriedade aqui e os três homens representados tem também um X da mesma cor sobre seu tronco.

Penso em como a fala de Seel a partir dos anos 80, a década assombrada pela AIDS, pode ter sido importante. Mais do que isso, é interessante ler seu relato em um momento em que a homofobia é lançada nos holofotes dos debates públicos – se não pelas grandes empresas da comunicação (da televisão, precisamente), ao menos por mídias como a Internet e as redes sociais. Ler suas palavras é constatar que muito foi feito, mas que muito mais há por se fazer. Apenas como exemplo, recentemente o governo russo aprovou uma lei que proíbe manifestações públicas LGBT pelos próximos cem anos. Quão absurda uma lei pode ser? Como não aproximar este documento de uma postura fascista tal qual descrita pelo autor?

Vejamos, ouçamos e falemos. Levando Pierre Seel como uma espécie de mártir dos direitos dos homossexuais, ergamos nossas bandeiras em seus diversos tamanhos (longas como as que cortam a Avenida Paulista uma vez por ano ou pequenas como um ímã de geladeira) e lutemos em conjunto para que os triângulos rosa não voltem à tona. Tenhamos o verbo de Keith Haring como direção: agir.

(texto publicado originalmente na Revista Contemporartes em 11 de setembro de 2012)

sábado, 8 de setembro de 2012

Sem título


Logo após adentrar o Espaço Apis, ocupado pela exposição “O que te escolhe, te move e alcança o mundo”, se vê à direita uma abertura que indica a passagem para uma segunda sala. Ao seu lado, em formato retangular que recorda uma porta, há um quadro de autoria de Bet Katona. Adequado seria lidar com este objeto tendo em mente a tradição da pintura, ou seja, pensa-lo como uma janela. Mas o que se vê através desta imagem?

A estrutura visual desta pintura frisa, em parte, o seu contorno, tal qual uma moldura. Poderíamos afirmar, então, que se por um lado este trabalho não é moldurado, por outro incita um retângulo sobre/dentro do objeto retangular. A cor preta que dá este efeito contrasta de modo pungente com um tom de rosa fosforescente. Impressiona o modo como esta imagem salta aos olhos dentro do espaço expositivo e me obrigou a voltar a ela mesmo que estivesse já do outro lado da sala, criando uma ansiedade em construir um inventário pessoal de apreensões em diversos ângulos.

Essa potência visual se deve ao seu caráter monumental pautado na economia formal. Não se tira, nem se põe nada nesta pintura; precisão e verticalidade parecem ser as molas-mestras desta pesquisa artística. E o que são estas formas? A pergunta já denuncia a minha primeira resposta – o quadrado quase ao centro retângulo me incita relações óbvias e que me deixam em um lugar seguro: Malevich, Mondrian e Van Doesburg. Há algo, porém, de diverso aqui: ele tem pernas. Duas linhas pretas partem de seu centro e uma delas esbarra com semelhante forma à sua direita.

Distancio-me da imagem e volto a observar uma janela tal qual ditada por Alberti. Haveria, então, incidência mimética e de perspectiva? Estaríamos diante da recodificação de uma paisagem? Seria isto uma máquina? Leio a plaquinha com seus dados técnicos e me surpreendo: “sem título”. É interessante a ausência de qualquer nome próprio para esta imagem.

A partir do silêncio desta pintura, duvidar se faz essencial. Sem identificações, sem direcionar a leitura do espectador, sem deixar marcas de pincel sobre a tela. Como já diria Leonardo da Vinci, “a pintura é poesia muda” – e a mudez, em um mundo tão verborrágico, é mais do que bem-vinda.