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terça-feira, 28 de agosto de 2012

Sobre a exposição "Oswaldo Goeldi: sombria luz"


"Oswaldo Goeldi: sombria luz"
Museu de Arte Moderna de São Paulo
De 14 de junho a 19 de agosto


“Branco e preto” ou “preto e branco”? Independentemente da ordem aplicada a estas palavras, podemos utilizá-las a fim de se iniciar uma leitura desta retrospectiva de Oswaldo Goeldi; seu contraste é capaz de proporcionar a “sombria luz” do título da exposição.

Após sermos recebidos por um texto preciso de Paulo Venâncio Filho, curador da mostra, temos uma boa surpresa: não há aqui qualquer intenção de se segmentar a obra de Goeldi em fases ou de inserir aquelas habituais cronologias explicativas sobre a trajetória de sua vida. Adaptando uma frase bíblica, é possível afirmar que o modo como a curadoria pensa junto à expografia “dá ao espectador, o que é do espectador”, ou seja, enfoca e coloca sob os holofotes a extensa produção de desenhos e gravuras desse importante artista brasileiro.

Goeldi contrasta com a produção de arte moderna no Brasil do começo do século XX. Realiza uma exposição individual em 1921, no Rio de Janeiro, mas se ausenta, ao que tudo indica, daquele que se torna marco historiográfico posterior, a Semana de Arte Moderna de 1922. Sua pesquisa artística, como esta exposição mostra de modo coeso, não gira em torno da busca por uma brasilidade tropical dada por cores vivas e que é ilustrada através de narrativas mitológicas e exóticas. Seu olhar esbarra e dilacera justamente aquilo que se encontrava em estado de putrefação.

As grandes cidades, seu rápido crescimento e a presença de áreas negligenciadas pelo governo, impossíveis cartões postais, são um de seus enfoques. A partir daí, indivíduos tidos como marginais se transformam em protagonistas: a prostituta, o bêbado, o pescador e aqueles que são apenas vultos, meros indícios de humanidade. Saem os sabiás e entram os urubus; morrem as palmeiras de Tarsila do Amaral e ganham vida os rascunhos de chaminés.

Enquanto o livreto do museu chama o artista de “o expressionista do Leblon”, o público pode ter certeza de que suas imagens estão mais próximas dos sons de um órgão do que do violão da bossa nova.



(texto publicado originalmente na Revista Dasartes, na edição de agosto-setembro de 2012)

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