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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Olhe para o meu boné




Juazeiro do Norte, Ceará. Na Rua do Horto, subida que parece interminável quando somada ao sol escaldante, casas justapostas. Na ausência de quintais e de vazios entre as construções, a rua e a calçada se transformam em um misto de espaço de descanso e de compartilhamento daquilo que poderia vir a ser trancado na fortaleza que é toda casa.

Ao fim deste percurso, a imagem que se anunciava acima das montanhas no momento da partida: o homem, o mito, o padre e, um dia, o prefeito, Cícero Romão Batista. Tão impactante quanto a figura do Cristo Redentor no Rio de Janeiro, com dez metros a menos e construído trinta anos depois, seus braços não estão abertos. No lugar da recepção acalorada e que faz lembrar a crucifixão, o Padre Cícero é apresentado de modo retilíneo como uma coluna – e haveria melhor apresentação para um homem que é símbolo do poder?
Uma mão segura um chapéu, como um ato de cumprimento, enquanto a outra apoia o corpo sobre uma bengala; falecido aos noventa anos, Cícero aqui é a personificação da experiência e lança seu olhar para a paisagem desta cidade cuja existência deve muito ao seu tino. Ao redor da base deste monumento, sobre seu corpo, milagres são procurados: nomes próprios, desejos e agradecimentos se misturam dando forma a um livro a céu aberto da fé.

À frente desta escultura, algumas estruturas de ferro que lembram arquibancadas. Homens com suas máquinas fotográficas (um dia lambe-lambe e agora todas digitais) circulam o espaço e oferecem seus serviços. Não resisto e pretendo levar para casa um cartão postal personalizado, ou seja, um retrato fotográfico meu presente nesse ponto turístico. Subo numa das estruturas e, assim como um Tiziano coordenava e inseria o retratado em um esquema visual, tenho meu corpo dirigido pelo fotógrafo.

“Mantenha o corpo reto”, ele diz. Ajusta a lente e depois pede: “Agora olhe para o meu boné”. Claro, como poderia ter uma imagem minha iluminada pelo olhar seguro de Cícero evitando o contato direto com o espectador? Na simulação de sua postura confiante, duas poses são tradicionalmente possíveis: em uma foto ergo a minha mão direita, como se tocasse o homem santo. Na outra, me coloco abaixo dele e sou abençoado. Em dez minutos elas já estão impressas, portadoras de bordas verdes e de um texto que não deixa dúvidas de que estes retratos foram produzidos em Juazeiro do Norte em data específica.

Posso não ser nada religioso, mas se existe algo em que acredito é no poder das imagens e na capacidade de que nós, humanos, temos de atribuir respeito e sentido a estes espelhos de nós mesmos – seja em caráter monumental e público, seja em um frágil pedaço de papel postado a um ente querido. 


(texto publicado originalmente na Página da Caza, no Jornal do Commercio, em 10 de agosto de 2012)

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