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sexta-feira, 8 de junho de 2012

Devaneios


A Casa França-Brasil acolhe até o dia 8 de julho a exposição “Miragem”, de Regina de Paula, dentro do Projeto Cofre. Ao mirarmos o pequeno cofre desse prédio que já foi a Alfândega, constatamos que o espaço para entrada do corpo dos espectadores está ainda mais restrito que o habitual – nos resta um semi-arco onde três pessoas já são uma multidão. A instaurar esta forma, uma chapa de acrílico que protege um monte de areia de 1,45m de altura.

É curioso confrontar a imagem e a presença perante este bloco que causa certo confinamento à denotação da palavra “miragem”. Em um dicionário encontro “efeito óptico que ocorre nas horas mais quentes, especialmente nos desertos, produzido pela reflexão da luz solar, que cria uma imagem semelhante a um lago azul, onde por vezes se refletem imagens”. Onde está esta porção de água? Ausente, a miragem aqui não será feita no deserto, mas ela é esta própria zona árida. Sem sol, mas com a luz artificial, as imagens não serão rebatidas sobre a superfície cristalina, mas sobre o acúmulo de pó que é batizado como areia. Não há reflexo como fenômeno da Física, mas como experiência da Arte. Exerçamos, portanto, o nosso olhar.



Próximas às margens de acrílico, as linhas horizontais formadas pelo empilhar da areia. Sobre elas, porém, alguns pequenos volumes de areia fogem à qualquer tentativa de ordem; como dar uma forma exata a um conjunto de grãos? Esses montinhos de vida curta, destruídos e construídos com um assoprar, remetem a montanhas: as que cortam o Rio de Janeiro, as que foram esfumaçadas por Leonardo da Vinci e as que estão contidas dentro de pequenas garrafas, coloridas e também arenosas. Mais abaixo, os encontros destas partículas criam sugestões de desenhos: se uns parecem pender para baixo, outros são cones passageiros rumo ao teto. Um protótipo de gruta feito de areia? Um aquário às avessas: fantasmas de oásis rondam estas formas pontilhistas que se assemelham a estalactites.

Esta ampulheta gigante refletirá paisagens criadas pela apreensão do espectador. A passagem do tempo será a responsável pela transformação da matéria e pela ampliação de devaneios que esta quimera de areia possibilita. Este deserto não tem um São Jerônimo, mas assim como o santo, nos colocamos a tentar traduzi-lo em palavras.


(texto publicado originalmente no Jornal do Commercio, na Página da Caza, em 07 de junho de 2012)

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