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terça-feira, 26 de junho de 2012

Navegar não é preciso



No espaço expositivo, um autorretrato esculpido nos aguarda. Sobre uma velha coluna de madeira extraída de um armazém próximo ao litoral, seus olhos cerrados chamam a atenção. Os braços apontam para baixo e, num rápido olhar, remetem à figura de um maestro. Em vez do fraque, as vestes de um marinheiro; como baquetas, as cordas um dia capazes de reter embarcações.

O verbo no passado: estes objetos atavam os barcos aos seus litorais. Agora as barcas estão situadas no interior de um museu, apropriadas pelas mãos de um artista contemporâneo. Ao andar em torno deste encalhe, as marcas do tempo são observadas através dos diferentes cromatismos dados pelo desgaste do contato entre madeira e água. Estariam estas pequenas embarcações em um momento de deriva? Quantas outras vezes seus destinos foram conscientemente alterados a fim de se escapar das rotas?


A contrastar com este poligonal acidente em um píer, uma estante abriga fileiras de garrafas de vidro. A organização é apenas aparente: preenchidas com água de rios da Paraíba, algumas possuem imagens de embarcações impressas em seu interior. O mofo dos barcos cede lugar ao papel que se desintegra pela ação da água. As garrafas viram miniaturas de oceanos e a história das navegações através da imagem se extinguirá.

“Divortium aquarum” significa “divisória de águas” e é um termo que diz respeito à separação de territórios quanto ao seu espaço marítimo. O que José Rufino “divide” com esta instalação? Lembremos que seus olhos estão fechados perante esta conjunção de imagens proporcionadas ao público. Parece que estamos diante de um convite a também fechar os olhos e apreender o real junto aos olhos da imaginação, da memória e do sonho. Coloquemo-nos sobre esta linha divisória e imaginária entre realidade e ficção.


Invertendo as palavras de Pompeu, “viver é preciso, navegar não é preciso”, ou seja, enquanto a vida pode ser contabilizada, a fruição sobre a proa da arte sempre se dá de modo fugidio e sem esfera armilar.


(texto publicado originalmente na revista Dasartes, na edição de junho-julho de 2012)

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Vermelho terra


No terceiro andar do Centro de Artes Hélio Oiticica, dentro da exposição “Espelho refletido”, vemos formas orgânicas suspensas, como que a levitar. Se tomarmos distância e nos colocarmos do lado oposto destas esculturas, apreenderemos uma imagem que recordará Pablo Picasso. As experiências do artista em realizar imagens esquemáticas de mulheres em repouso, mas que incitam o movimento através da sinuosidade da linha, são aqui refletidas de modo fragmentado. Longe de compor uma figura clara, nas esculturas de Cristina Salgado fruímos as fatias de carne que compõe isso que apelidamos de “humano”.

Ao tomar proximidade, as formas abstratas se tornam pedaços de um corpo que se explodiu em pequenos meteoros. Dois olhos agora são percebidos como mamilos. As estranhas formas que brotavam de dentro dessas estruturas se configuram como dedos. Lado a lado, se um dedo está ereto e indica uma direção, o outro, assim como uma trompa, ameaça flagelar um seio com sua unha afiada. Janelas da alma pendem e pedem que as nossas se voltem para cima. Circundando-as, pequenos hominídeos flutuam e aguardam o toque do ferrão (ou da unha) “da abelha que voava ao redor de uma romã” para que acordem deste sonho (ou seria um pesadelo?).


Falando em miniaturas, carimbos atravessam as paredes e instauram uma pista de corrida: tendo como ponto de partida os contornos da nudez de uma mulher, a proliferação de marcas em diferentes estados de impressão de pessoas a conduzir cavalos. Nuvens de acúmulo ladeiam áreas mais dispersas e saltam aos olhos algumas solitárias imagens de um grande rosto feminino que substitui os pictogramas assexuados de cavaleiros – o grito de uma amazona?

Um ensaio sobre o vermelho com duas camadas de leitura: a primeira, cromática, se apresenta no pastel da pele, no róseo dos mamilos e no scarlet do esmalte. A outra interpretação se dá de modo mais iconológico: o rubro que advém do sangue e que pode se relacionar à violência, mas ao mesmo tempo se vincula ao desejo sexual – e haveria algo mais contraditório do que este ato que fica entre a dança e a luta?


As vísceras de uma “lady in red”, onde a dama está mais para femme fatale. Em vez de buscar o glamour que a cor poderia oferecer, mais apropriado é um tom de vermelho terra que nos coloca em uma relação instintiva e, nesse sentido, “primitiva” no embate entre o outro e nossas pulsões. 


(texto publicado originalmente no Jornal do Commercio, na Página da Caza, em 22 de junho de 2012)

quinta-feira, 14 de junho de 2012

“Todo o amor que houver nessa vida”

(para assistir ao registro da performance, basta clicar na imagem acima)

O círculo, desde Platão, é considerado uma forma geométrica perfeita. No “Timeu”, ele afirma:

De facto, a forma adequada ao ser vivo que deve compreender em si mesmo todos os seres vivos será aquela que compreenda em si mesma todas as formas. Por isso, para o arredondar, como que por meio de um torno, deu-lhe uma forma esférica, cujo centro está à mesma distância de todos os pontos do extremo envolvente – e de todas as figuras é essa a mais perfeita e semelhante a si própria –, considerando que o semelhante é infinitamente mais belo do que o dissemelhante.[1]


Com uma chave de leitura cristã, nitidamente devedora do pensamento platônico, Santo Agostinho discorre sobre as formas geométricas em “Sobre a potencialidade da alma”: 

Quanto à figura mais excelente, não duvidará que seja aquela cujo perímetro está equidistante do centro de tal maneira que qualquer ponto da superfície dista igualmente do centro, sem ângulos que impeçam a igualdade, de cujos centros podemos traçar linhas iguais para qualquer dos limites da figura.[2]

O círculo ou a esfera é a forma geométrica que engloba os astros, sendo presente nas mais diversas representações cosmogônicas: é o sol, a lua, a Terra, é aquilo que possibilita que Saturno tenha anéis e se configure, em verdade, como uma série de círculos concêntricos. É casa também de Yin e Yang, conceitos do taoísmo: escuridão e luz, oposição e completude, noite e dia numa mesma figura.


Esta mesma construção matemática dá forma à parte da arquitetura do Centro Cultural Banco do Brasil situado no Rio de Janeiro, no Centro carioca. Construção iniciada em 1880, o prédio funcionou entre 1906 e 1986 exclusivamente para fins econômicos. Inicialmente uma Associação Comercial, funcionou também como Bolsa de Fundos Públicos e depois como uma agência deste que é o primeiro banco estatal criado em terras brasileiras. O CCBB-RJ, atualmente, pode ser considerado um dos mais importantes pólos de cultura da capital do Rio de Janeiro, onde diversas exposições de artes visuais e mostras de cinema passam após disputada seleção pública de projetos. Nesse sentido, poderia ser chamado de “templo da cultura” de modo equivalente à etimologia da palavra “museu”, ou seja, um “templo das musas”, local de preservação do conhecimento e perpetuação da memória através das imagens.

Voltando ao círculo e chegando à arquitetura: chama a atenção neste prédio a rotunda que ilumina e coroa o foyer deste espaço. Trinta e três metros distanciam o chão da cúpula de vidro; o diálogo entre espaço interno erguido pelo homem e contemplação distante da natureza azul está dado. E qual a origem desta opção arquitetônica? O mais célebre exemplo de prédios com uma rotunda (rotonda), ou seja, com base circular e uma cúpula, advém da Antiguidade romana e se encontra até hoje conservado. Trata-se do Pantheon, construído no século I a.C. e reformado no século seguinte. Como seu próprio nome aponta, tratava-se originalmente de um abrigo (panteão), ou melhor, um templo para todos os deuses do Olimpo. No século VI, devido às diversas mudanças proporcionadas pela criação e disseminação do cristianismo, o espaço foi rebatizado para Igreja de Santa Maria e Todos-os-santos; o protagonismo, portanto, foi dado à mãe de Jesus e a todos os seguidores que se martirizaram pela propagação de seu nome. Para o filósofo neoplatônico Plotino (século III), Deus era o Uno e poderia ser representado pela luz – este grande raio luminoso pode ser fruído nos dias atuais dentro do Pantheon devido a uma esfera que fica ao centro da cúpula e emociona os turistas cristãos com suas máquinas fotográficas. Deus ainda pode ser luz.


Em uma noite de 2006, iluminados por luz artificial, mas ao centro de um modelo arquitetônico que um dia foi alvo para a luz divina, a Cia. Excessos realizou uma performance. Dois corpos pousaram sobre o coração do foyer do CCBB-RJ e sustentaram um beijo por meia hora. O ato afetivo que por si chamava a atenção pela centralidade espacial tinha um dado que saltava aos olhos: após constatar a diferença de alturas entre os indivíduos e considerar que o mais alto seria um homem e o mais baixo uma mulher (suspeita que se confirmava após um olhar mais detido), se percebia que uma curta saia xadrez era um elemento fora do conjunto.

Tales Frey estava vestido com um top amarelo e saia, ao passo que Cristina Ágape portava uma calça cargo e um gorro. Não se tratava, portanto, de afeto homossexual, mas um beijo heterossexual que se apresentava como um rápido desconcerto. Imagino que a reação do público que fazia fila para o teatro e que aparece ao fundo deste beijo no registro existente seja a mesma de quando mostro este trabalho aos meus alunos. Em primeiro lugar ouço algo como “Meu Deus, um homem e um travesti se beijando” e, segundos depois, alguém diz “Não, é um homem vestido de mulher”. Os pelos nas pernas são percebidos e freiam uma primeira reação preconceituosa do espectador. Dessa exclamação brota uma interrogação: “Por que eles estão vestidos desse modo? Por que não estão ‘normais’?”.

Este parece o ponto que a Cia. Excessos também deseja perguntar: o que é o “normal”? O que é “ser normal”? O que é uma roupa “apropriada” ao seu gênero? Mais do que isso, como se constroem os gêneros? Há espaço para essa discussão e para limites tão claros em uma cultura visual contemporânea que já coroou Madonna, David Bowie e Lady Gaga, e que cada vez mais questiona o próprio conceito de ambiguidade?



Realizar esse gesto artístico no centro do CCBB-RJ é como gritar em praça pública. O “templo da cultura” foi tomado e todos os passantes esbarrarão com um ato artístico de meia hora. Muitos sequer saberão que aquilo ali era arte, mas isso não é o mais relevante; importa saber que estes muitos também não apagarão essa cena (nojenta para alguns, heroica para outros) de suas memórias. O pobre Platão é colocado contra a parede: sobre o seu perfeito círculo, algo que choca sua afirmação de que “o semelhante é infinitamente mais belo que o dissemelhante”.

Ao levar em consideração a própria história da conceituação religiosa em torno do círculo e, além disso, da utilização da rotunda como elemento formal da arquitetura religiosa, podemos interpretar este ato da Cia. Excessos como uma profanação – efêmera e singela, assim como a presilha colocada no cabelo do performer que convida nossa olhar para o seu rosto e para a presença de seu bigode. Esse dado profano é ampliado quando se toma conhecimento que este trabalho foi realizado enquanto estava em cartaz a exposição “Erótica – sentidos da arte”, onde um trabalho de outra performer, Márcia X, foi censurado. O registro de um de seus trabalhos mais famosos, “Desenhando com terços”, em que a artista fazia o contorno de falos através da linearidade destes objetos sacros, ocupando o chão de uma sala, foi retirado do evento devido à pressão de autoridades católicas do Rio de Janeiro. Mal eles sabiam que outra ação, não emoldurada, de curta duração, mas que terá longa vida devido ao registro audiovisual e acesso público devido à Internet, foi realizada logo abaixo, no térreo da instituição, sem necessidade de mediação ou de elevador, fora das salas que permeiam as imagens com o estatuto da arte.

Se o Pantheon era um templo para todos os deuses, a Cia. Excessos realiza uma construção de imagem diversa com corpos e a lembrança proporcionada pelo vídeo. Sai a figura de “Deus” e entra o protagonismo do beijo. O panteão se metamorfoseia em “panamor” e é erguido outro monumento a toda a forma de amor, a todos os amantes que já trocaram fluídos na História. Homens e mulheres, mulheres e homens, homens e homens, mulheres e mulheres ou, mais do que isso, humanos com humanos. Um viva e a esperança de dias melhores para, como diria Cazuza, “todo amor que houver nessa vida”.




[1] PLATÃO. Timeu-Crítias. Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, 2011, pág. 102.
[2] AGOSTINHO, Santo. Sobre a potencialidade da alma. Rio de Janeiro: Vozes, 2005, pág. 58.


Texto integrante do livro/catálogo "Cia. Excessos", no prelo.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Devaneios


A Casa França-Brasil acolhe até o dia 8 de julho a exposição “Miragem”, de Regina de Paula, dentro do Projeto Cofre. Ao mirarmos o pequeno cofre desse prédio que já foi a Alfândega, constatamos que o espaço para entrada do corpo dos espectadores está ainda mais restrito que o habitual – nos resta um semi-arco onde três pessoas já são uma multidão. A instaurar esta forma, uma chapa de acrílico que protege um monte de areia de 1,45m de altura.

É curioso confrontar a imagem e a presença perante este bloco que causa certo confinamento à denotação da palavra “miragem”. Em um dicionário encontro “efeito óptico que ocorre nas horas mais quentes, especialmente nos desertos, produzido pela reflexão da luz solar, que cria uma imagem semelhante a um lago azul, onde por vezes se refletem imagens”. Onde está esta porção de água? Ausente, a miragem aqui não será feita no deserto, mas ela é esta própria zona árida. Sem sol, mas com a luz artificial, as imagens não serão rebatidas sobre a superfície cristalina, mas sobre o acúmulo de pó que é batizado como areia. Não há reflexo como fenômeno da Física, mas como experiência da Arte. Exerçamos, portanto, o nosso olhar.



Próximas às margens de acrílico, as linhas horizontais formadas pelo empilhar da areia. Sobre elas, porém, alguns pequenos volumes de areia fogem à qualquer tentativa de ordem; como dar uma forma exata a um conjunto de grãos? Esses montinhos de vida curta, destruídos e construídos com um assoprar, remetem a montanhas: as que cortam o Rio de Janeiro, as que foram esfumaçadas por Leonardo da Vinci e as que estão contidas dentro de pequenas garrafas, coloridas e também arenosas. Mais abaixo, os encontros destas partículas criam sugestões de desenhos: se uns parecem pender para baixo, outros são cones passageiros rumo ao teto. Um protótipo de gruta feito de areia? Um aquário às avessas: fantasmas de oásis rondam estas formas pontilhistas que se assemelham a estalactites.

Esta ampulheta gigante refletirá paisagens criadas pela apreensão do espectador. A passagem do tempo será a responsável pela transformação da matéria e pela ampliação de devaneios que esta quimera de areia possibilita. Este deserto não tem um São Jerônimo, mas assim como o santo, nos colocamos a tentar traduzi-lo em palavras.


(texto publicado originalmente no Jornal do Commercio, na Página da Caza, em 07 de junho de 2012)