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sexta-feira, 4 de maio de 2012

Desbotar



“Give me the bright lights”, diz a cantora Lana del Rey em um refrão de lamentação voltado a um amante. De onde poderia vir este brilho? As pistas estão em versos da mesma canção, “Brite lites”: “eu te procuro em revistas” e “estou acenando na tela do cinema”. O tapete vermelho, os flashes e a construção de um romance melodramático de Hollywood. Glitter, escarlate nos lábios excessivos e os quadrados de vidro que compõe o globo que impera sobre uma pista de dança. O momento posterior ao clique, quando se retira a máscara de glamour do rosto: insegurança e a companhia solitária de um abajur.

Durante duas semanas o artista Leo Ayres participou do projeto Vitrine Efêmera, do Estúdio Dezenove, no bairro de Santa Tereza. Ao cobrir seu interior com película espelhada, criou um quadrado que refletia os objetos ao seu redor. Transeuntes se deparavam com sua própria imagem e se tornavam figuras de propaganda temporária para uma vitrine sem fins comerciais. O diretor de fotografia desta campanha era o sol que proporcionava uma variedade de tonalidades devido ao seu deslocamento. As formigas-operárias da colônia carioca freavam seu percurso e podiam se contemplar como rainhas. Um olhar mais atento ou a despedida do sol fazia perceber um segundo dado dentro deste aquário de vidro: lâmpadas acesas e agrupadas. Dentro de suas estruturas frágeis, flores iluminavam esta vitrine e tomavam o posto de micro holofotes. Objetos destinados a luminárias geram uma ambiência semelhante a um melancólico editorial de moda.


O título deste conjunto de imagens é “Antes do amanhecer”, referência ao filme dirigido por Richard Linklater, de 1994. Dois personagens se conhecem em um trem, mas estão prestes a retornar a seus países de origem. Antes de fazê-lo, decidem passar suas últimas horas juntos até que o sol dite o fim deste romance.

Poderia haver futuro nesta relação rápida? Leo Ayres indica que talvez sim, visto as pequenas luzes que ainda estão acesas. O sol diário se sobrepõe a elas, mas é incapaz de destruí-las. Apenas o tempo será capaz de responder e nunca de modo certeiro. Na ausência de um veredito, cabe ao espectador a oportunidade de se colocar no lugar de personagens do cinema, agora protagonistas de uma vitrine, e refletir sobre a brevidade de suas próprias relações. Colocando nas palavras de Lana del Rey, “o filme está desbotando, olhe para mim”.


(texto publicado originalmente no Jornal do Commercio, na Página da Caza, em 4 de maio de 2012)

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