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terça-feira, 29 de maio de 2012

Barulho



Em 1592, o holandês Theodore de Bry termina uma série de imagens que ilustram relatos de viajantes europeus à recém-“descoberta” América. Uma de suas gravuras mais famosas mostra um grupo de nativos comendo partes de um corpo humano em torno de uma fogueira. Baseado no relato heroico de Hans Staden, desbravador alemão que passou por desventuras em série devido à sua ânsia por conquistar, a imagem aponta um tópico comum à “era das navegações”: a alteridade. Um grupo de estrangeiros (“índios”) tem uma imagem criada por um homem branco, europeu e que se baseia no relato de outro. Por outro lado, no seu desejo por representar um lugar em que nunca esteve e que era habitado por sanguinários canibais (mais fábula que documento), ele cria uma imagem sintética; há união na atitude destes integrantes da tribo Brasil que produz uma unidade através da sua organização pelo papel.

Alteridade e união parecem palavras essenciais dentro da proposição do Opavivará! quanto à ocupação da Praça Tiradentes. Andar, cozinhar e lavar em conjunto... “Conjunto” de quem? Dos artistas e do “público”... mas quem são os artistas? As muitas cabeças que estão ali também na praça pública, agindo e deixando agir, sendo ligeiros protagonistas e, talvez melhor, mais um elemento coadjuvante ou figurante dos grupos dispersos de pessoas que se formam às quartas e sábados neste espaço. Lidar com o “outro” está aí desde que a arte é arte – todo retrato se dá nessa relação, por exemplo. Quando a fotografia foi inventada, alguns retratados achavam que sua alma seria roubada pela lente e seu flash. Haveria alma usurpada neste evento artístico? Parece que não.


Visto que neste caso nenhum olhar para a alteridade (que se dá pelo fato de eu não ser você, enquanto indivíduo, e também pelas diferenças culturais, econômicas, geográficas e sociais que vem à tona nestas reuniões de um grupo grande de pessoas) do público presente é autoritário, ou seja, sempre se dá em via de mão dupla onde o fotógrafo explicita a futura divulgação da imagem de um “outro” que parece satisfeito com a experiência artística, não será preciso recorrer a nenhuma entidade para que estas almas sejam encontradas. As objetivas relações de poder percebidas nos cartões de visita de “tipos cariocas” do século XIX são dispersas e ofuscadas por sorrisos, brilhos nos olhos e dedos polegares para cima – “curtir” é palavra de ordem.

E aí entra a união: quanto mais amigos, maior a possibilidade de curtir e ser curtido. Nada mais justo, então, do que se cozinhar de modo coletivo. Como diria o ditado, “à hora de comer, o diabo sempre traz mais um”; mas quem é santo hoje em dia? Longe dos maniqueísmos, a fragmentação dos ingredientes, assim como os membros fatiados da ilustração de Hans Staden. Cada um de um canto, de um hábito alimentar diverso e o improviso sobre o fogão. Longe do canibalismo, mas perto da antropofagia de Oswald de Andrade.


“O último tamoio” (1883), de Rodolfo Amoedo, “Tiradentes esquartejado” (1893), de Pedro Américo e “A primeira missa no Brasil” (1861), de Victor Meirelles se tornam citações de uma distante arte produzida no Brasil. Não há mais espaço para a construção de uma História oficial da terra brasilis com seus heróis e mártires nacionais. Todos somos justiceiros e injustiçados em um tempo e lugar em que a Justiça tem um olho vendado, mas consegue olhar por uma fresta por baixo deste mesmo tecido que cobre o outro.

O que nos resta fazer? Lavemos roupa suja em público. Expurguemos e deixemos expostos aos olhos de todos os passantes as partes deste quebra-cabeça sem resolução, tal qual um metaesquema de Hélio Oiticica, que é o Centro, que é o Rio de Janeiro, que é o Brasil – nomes de lugares que estão, sempre, entre aspas. Algumas pessoas passarão, pensarão e dirão “isso não é arte”. Talvez realmente não seja, talvez não mereça as molduras de madeira e/ou as paredes do cubo branco. Uma coisa, porém, é certa: faz mais barulho do que muito óleo sobre tela silencioso por aí.


(texto publicado originalmente no Jornal Opavivará! - edição nº 3, distribuído na Praça Tiradentes a partir de 1 de junho)

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