As
bordas de uma imagem fotográfica e as linhas que contornam os espelhos:
polígonos. No seu entorno, dois elementos cujo domínio pelo viés da geometria
foi tentado à exaustão em séculos de produção de imagens: o corpo humano e a
paisagem. Se em sua autoimagem o
artista se encontra parcialmente “ao léu”, desnudo, o mesmo não pode ser dito
quanto à sua proposta poética.
A
experiência fenomenológica do indivíduo com a natureza e seu fugidio reflexo
são transformados em imagens estáticas. Toda fotografia e todo espelho são
propositores de mediação, duplo e metade, imitação e distorção; o simulacro aqui
se dá de modo inevitável. E seria possível apreender a existência de modo não
instrumentalizado?
A
prudência, tida desde a Antiguidade como a mãe das virtudes, possui a
iconografia de uma mulher que se observa em um espelho. Mais do que uma vaidosa
autoavaliação, esse ato poderia ser prolongado como uma reflexão sobre nossas
atitudes e o mundo – “remete às coisas passadas, ordena o presente e prevê o futuro”,
diz Cesare Ripa.
A
pesquisa artística de AoLeo pode, portanto, lançar questão semelhante:
existiria um modo prudente de nos relacionarmos com a “natureza”? O quanto de
nós mesmos, projeção de carne e ossos, existe dentro da construção deste amplo conceito
entre aspas? Por fim, até que ponto toda paisagem não é, na verdade, um
autorretrato?
(texto publicado no catálogo da exposição "Abre alas", no Rio de Janeiro, entre 14 de fevereiro e 10 de março, na galeria A Gentil Carioca e no Centro de Arte Hélio Oiticica)
(texto publicado no catálogo da exposição "Abre alas", no Rio de Janeiro, entre 14 de fevereiro e 10 de março, na galeria A Gentil Carioca e no Centro de Arte Hélio Oiticica)



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