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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Ligar os pontos




Entre 1816 e 1831, o francês Jean-Baptiste Debret habitou o solo brasileiro. Com a finalidade de inaugurar uma escola de belas-artes, teve o Rio de Janeiro como base e se pôs a desenhar o dia-a-dia da corte portuguesa, transformando-o em imagens estáticas. Quase dois séculos depois, o brasileiro Virgílio Neto viaja para o Velho Mundo a fim de ampliar seu vocabulário visual. Uma de suas paradas é na efervescente Berlim, onde atravessa museus e espaços urbanos em eterno processo de esquecimento e atualização pós-guerras. Da tradição clássica para a terra de palmeiras e sabiás; do modernismo de Brasília para a capital da “pintura contemporânea”. Um do século XIX, primo de Jacques-Louis David e cursado na doutrina neoclássica; o outro, sob o muito utilizado rótulo de “jovem artista”, ávido por “tatear o mundo”. Contextos culturais à parte, o que ambos podem ter em comum? Duas me parecem as respostas: o ato do desenho e a alteridade cultural.

Em 2011, os trabalhos de Virgílio Neto foram mostrados em três exposições realizadas no Rio de Janeiro: “Novíssimos”, na Galeria IBEU (julho-setembro); “fake/doodles” (outubro-dezembro), no espaço da Bolha Editora; e, por fim, “(Des)equilíbrios e (im)perfeições”, ainda aberta à visitação na Galeria Coleção de Arte (desde novembro). Neste último evento é possível conferir uma série de desenhos produzidos devido à sua visita à Alemanha.



Sobre uma parede branca, imagens de diversos formatos produzidas sobre papel. Não havia exatidão sobre essas bordas; as margens desses retângulos eram escamoteadas pelo ato de se cortar o papel. Essa explicitação das camadas da matéria também pode ser percebida na visualidade construída pelo artista. Debret, vide o título de seu álbum de aquarelas (“Viagem pitoresca e histórica ao Brasil”), ao dar forma ao Brasil de D. João VI construiu pequenas narrativas. Virgílio Neto, sujeito e objeto de um tempo em que não mais se desenha à luz de velas, mas perante LEDs, produz um hipertexto.

Frases, títulos, espaços internos de museus e célebres imagens da história da arte são fundidos sob a superfície. Não estamos a lidar com um excesso de informação que impossibilita a apreensão individual por parte do espectador, mas, pelo contrário, chama a atenção a onipresença do papel e a opção por certa economia cromática: o branco que impera, o preto que não apenas é contorno e uma ou outra pitada de vermelho, amarelo e verde. Se for possível aproximá-lo da pintura de Jean-Michel Basquiat, parece preferível fazê-lo no que diz respeito às últimas obras deste, em que se percebe semelhante exploração da cor através de um menor número de figuras.


Caravaggio, Beuys, Godard, Warhol, Grünewald e a perspectiva embaçada por Virgílio Neto. Não temos aqui uma divisão clara entre essas diversas tradições; clássico, moderno e contemporâneo estão sob o mesmo estatuto, ou seja, são arte. Os grandes nomes por ele citados já passaram pelo seu processo de institucionalização e foram catalogados nos livros de Argan e Gombrich. Seu esforço se baseia em recosturar essa história evolutiva e linear da arte, picotando as páginas destas bíblias acadêmicas e jogando-as do ar como num pega-varetas. O ponto de vista é o da “história” com agá minúsculo, o do embate desse indivíduo com estes objetos aurificados.


Devido a isso, estes desenhos não se encontram organizados de cima para baixo, da esquerda para a direita, no formato comum da escrita ocidental. Há uma proposital “desorganização organizada” destas imagens onde há um convite a fim de que o público participe ativamente através de sua fruição, substituindo os vazios que separam estes desenhos por trilhas interpretativas.

É este caráter aberto e convidativo da obra de Virgílio Neto que permite aproximá-lo de Debret. As intenções narrativas e modos de utilizar os materiais plásticos criam um diálogo pelo contraste e não pela semelhança. De toda forma, como esta série de desenhos nos demonstrou, é preciso ter sintonia para se construir pontes? Parece-me que não e, portanto, está feito o convite: brinquemos de ligar os pontos.


(A exposição "[des]equilíbrio e [im]perfeições" segue aberta até o dia 31 de janeiro na Galeria Coleção de Arte, no Rio de Janeiro)

Um comentário:

Sueshouse disse...

Parabéns,pelo texto!
Profunda admiração!!!
Amo-te!!!