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sábado, 8 de outubro de 2011

Saliva, suor e lágrimas

“Weekend” (2011), de Andrew Haigh. Melhor: “weekend”, como o próprio filme faz questão de frisar em seus primeiros minutos. Um final de semana, uma semana e um fim. Dois homens, pelos, barbas e o “gosto de pau e bunda”, como um deles diz. Um salva-vidas que parece mais conduzido do que condutor de sua existência. Maior estatura, traços anti-clássicos e silêncio. Uma ponte. Do lado de lá, a brancura da pele, a verborragia e os pés que devem ficar em sua ponta para alcançar o beijo. Um artista, sua experiência no universo gay e o excesso de certezas.

O desenho acima, “Ilha da Decepção encontra Ilha da Desolação”, faz parte de uma série de trabalhos de Mayana Redin intitulada “Geografia de encontros” (2010-2011). “Weekend” é um filme sobre esta arte do encontro. Londres é a geografia que o circunscreve. A questão, porém, é que esse esbarrão se dá tal qual ditado por Vinícius de Moraes, cheio de desencontros. Enquanto um dos personagens em Londres permanecerá, a tomar conta daqueles que praticam natação em uma piscina, o outro irá atravessar uma quantidade maior de água, rumo aos Estados Unidos, a fim de prosseguir seus estudos em artes visuais. Aquele que vigia e sua rotina acimentada como contraponto ao marinheiro e seu estado de areia movediça.          

Câmera na mão e a utilização de planos próximos aos rostos destes dois que anseiam por se conhecer em tempo expresso. Nenhum minuto pode ser desperdiçado. Dois são os modos como os personagens interagem. Quando inseridos na cidade, o diretor opta por destáca-los do seu entorno, mas sem deixar de mostrar como a arquitetura e outras pessoas estão sobrepostas aos dois. A construção dessa relação também diz respeito à memória deste espaço das ações. De todo modo, não interessa, por exemplo, se serão chamados de “viados” ou se algumas pessoas olham com reprovação para a homoafetividade evidente. Apenas importa que resta um dia. Colocando melhor, ainda resta um dia.

A outra forma como sua relação é explorada é dentro do apartamento do salva-vidas, porto seguro e ilha. Em diversos momentos planos de prédios com pitadas modernistas são oferecidos ao público. Apenas a luz de seu apartamento fica acesa, dando um caráter fantasmático à sua vizinhança. Existiria vida ao seu redor? Não há necessidade dessa resposta. Tal qual um filme sobre catástrofe, eles são os últimos habitantes da Terra e apenas tem um ao outro.

É possível relacionar o filme com “Felizes juntos” (1997), de Wong Kar-Wai. Há aqui também um gravador e a vontade de registro. O artista grava depoimentos de seus amantes após a primeira noite de sexo porque é neste momento, segundo ele, quando ambas as partes rastejam no campo da intimidade, que os homens projetam suas leituras do outro. Tudo o que se tem são impressões e a partir disso as intenções futuras (ou a ausência delas) são moldadas. Ao partir desse princípio, é possível afirmar que no caso dele e do salva-vidas, portanto, tudo será apenas projeção. Não há tempo hábil para sair dessa modalidade e eles serão obrigados a lidar com as incertezas do talvez.

Cocaína, maconha, álcool e conversas infindáveis. No meio do furacão entre o breve presente e o garantido passado, todos os aditivos estão disponíveis para manter a intensidade da relação e seu aspecto de teste. Quais os limites de cada um? Até onde é possível provocar para conferir se haveria a possibilidade de um pós-morte? Pontuando os testes, frases de amor, melosas, clichés. Em dado momento me vi pensando sobre o quanto algumas destas frases ditas pelos personagens eram piegas.

Terminada a projeção, me perguntei: “Mas a vida não é piegas assim? Não construímos momentos semelhantes a estes com nossos amantes?” Causa estranhamento ver projetado na tela grande algo tão íntimo e, porque não, “romântico”. Esses momentos são patéticos por natureza e, tal qual no filme, apenas farão sentido para aqueles dois que os dividiram intimamente. Como rejeitar, por exemplo, o “Eu te amo” dito por Anna Karina ao fim de "Alphaville" (1965), de Godard?

O que nos resta deste encontro? A imagem melancólica do homem amado amarrando seu tênis e saindo de nosso apartamento. A vontade de falar algo, a censura e a auto-censura para que as palavras não virem água. A imagem do mesmo se distanciando de nosso prédio através da janela do apartamento. O trem que se distancia. Qual será o destino do amado? Será ele feliz na distância? Aparecerão outras pessoas? Foi relevante para ambas as partes? E se ele ficasse?

Três palavras definem este filme: ainda, talvez e se. Fica na boca aquele gosto estranho, delicioso e doloroso da mistura entre saliva, suor e lágrimas. 

Um comentário:

Erica Tulip disse...

Ui! Deu um friozinho na espinha...

Anotado.