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terça-feira, 20 de setembro de 2011

Descansar jamais


"... devemos ouvir com toda atenção a voz que vem de dentro, e esforçar-nos por atravessar as sombras das palavras até nos acercarmos de sua fonte: 'Ali o Verbo se fez carne e habitou entre nós'; e a fonte interna logo se liberta das palavras, de maneira ora violenta, ora febril, dentro das quais vive como que um encanto: 'Aconteceu comigo segundo o Verbo'" (Oskar Kokoschka, "Da natureza das visões", 1912)


É uma tarefa complicada comentar "Trabalhar cansa", dirigido por Juliana Rojas e Marco Dutra, a entrar nos cinemas brasileiros em 30 de setembro, sem revelar muito sobre o mesmo. Após sua projeção, a primeira coisa que veio à mente era sua possível relação com a pintura do chamado "expressionismo". Um dos maiores expoentes desta vanguarda artística no campo da pintura é Oskar Kokoschka, austríaco e citado logo acima. Trata-se de um momento em que os artistas buscavam pintar não como homem "civilizados" e permeados pela eletricidade, pelas megalópoles e pelo cada vez mais crescente deslocamento; havia um esforço pela "expressão" tal qual um homem que se iniciava na criação de imagens, de modo, entre largas aspas, primitivo. Deveria-se deixar de lado os preceitos do ensino acadêmico das belas-artes e basear suas pesquisas artísticas na distorção de cores e formas. Não se trata aqui de imitar, mas sim de captar, espiritualmente às vezes, a sensação de isolamento e solidão do mundo então contemporâneo. Menos Michelangelo e mais Lascaux; do domínio do desenho para a espacialização da cor.

"Trabalhar cansa", portanto, versa também sobre esta problemática relação entre o ser humano, a disciplina e seu entorno; é possível controlar tudo à nossa volta? Quais os limites do controle, da vigilância e da punição? Estes tópicos já apareciam, de certo mundo, no curta-metragem também dirigido pelos dois diretores, "Um ramo", de 2007, que tinha a mesma atriz, Helena Albergaria, no papel central. Tratava-se de uma mulher que se deparava com o nascimento de uma planta em seu corpo. No longa-metragem, por outro lado, o corpo é o espaço de um supermercado, um dia desativado e cada vez mais decorado e habitado durante o filme. No mesmo dia em que a personagem de Helena encontra um supermercado para alugar, seu marido é demitido de seu costumeiro emprego. Uma relação tal qual de uma balança é estabelecida e, no meio disso, a figura de sua pequena filha e a necessidade de se contratar uma "segunda mãe", uma empregada para a sua casa.

Pequenas alegorias são criadas e a tensão dada pela curiosidade acerca dos fatos estranhos que se sucedem dentro do estabelecimento comercial vai sendo pontuada de pouco a pouco. Para não explicitar em demasia a obra, cabe dar como exemplo o momento em que o dente da filha da protagonista cai e esta, sem sabê-lo, se depara com um tecido manchado de sangue em sua cozinha. A reação de indignação é imediata e, do mesmo modo, rapidamente dissipada quando sua nova funcionária do lar mostra esta parte agora fragmentada do corpo de sua filha. 

Essas construções de imagens, que podem ser interpretadas, metaforicamente, como constatações da perda do controle sobre o humano e a natureza, perpassam o longa-metragem de modo imanente - "vida que segue". Nem mesmo o tão aguardado e apoteótico desenrolar narrativo, em que alguns fatos misteriosos que se passam no supermercado são explicados/amarrados (não de modo literal, mas através de vestígios) concede uma idéia de término à ficção. Há sempre um momento seguinte, de aparente calmaria e respiração, em que os personagens continuam com suas medíocres existências.

Estas vidas, inevitavelmente, seguem aprisionadas de modo silencioso. Documentos, preços de produtos, dinâmicas em grupo para a busca de um novo emprego. Trabalhar cansa, viver cansa, lidar com as alteridades de outros humanos, sejam eles familiares, amigos ou funcionários cansa. Por outro lado, a vontade de domínio sobre o próximo, nas mais diversas concepções do termo que o filme pode sugerir através de suas imagens, não descansará jamais.

(texto publicado originalmente na Revista Contemporartes em setembro de 2011)

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