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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Minhas Mães e Meu Pai (Lisa Cholodenko, 2010)

O argumento é simples e já conhecido: inseminação artificial, filhos e a curiosidade em torno da figura paterna. O diferencial? Aqui não há o protagonismo de uma mãe solteira, como no clássico da Sessão da Tarde Feita por encomenda, de 1993, com Whoopi Golderg. Temos duas mães aqui e nada solteiras. Trata-se de um casal gay que resolve engravidar individualmente, mas do mesmo doador de sêmen. E não são duas mulheres quaisquer; Annete Bening e Juliane Moore levam o filme sobre as suas costas do começo ao fim.



Se enquanto direção de cinema o filme não apresenta nenhum elemento digno de grandes observações (visto que ele se iguala no campo da construção de imagens a outras comédias românticas como, por exemplo, O diário de Bridget Jones (2001) e mesmo Legalmente loira (2001)– por mais que eu ache esses dois filmes melhores sucedidos do que este), o mesmo não pode ser dito quanto ao seu roteiro. É inegável que o argumento e sua carga LGBT são dignos de nota. Importante existir um filme que pôde atingir uma quantidade razoável de público e que possui um casal homossexual como protagonista e sem transformar isto num drama existencial rodeado de perda e morte. Em contrapartida, o filme parece pecar pela obviedade do roteiro. Resumindo a questão, poderíamos dizer que o filme afirma que “sim, é possível ser gay e ter uma história água com açúcar”.

Temos, inicialmente, a costumeira figura da filha de dezoito anos que irá partir para uma universidade. Há um irmão que gostaria de saber quem é seu “doador”, mas sabe que não deveria. A irmã, por sua vez, sabe que não deveria procurá-lo, mas o procura. E, daí, temos um efeito dominó de comportamentos nesse mesmo sentido “sei que não deveria fazer isso, mas já o fiz”. Todos “pecam” nesse sentido: os filhos, as mães e o doador/pai. Enquanto isso aponta para o campo da obviedade dentro da interpretação do espectador (ao menos deste que escreve), ou seja, você começa a adivinhar o que irá acontecer em seguida, outro ponto dentro do filme são os conselhos certeiros dados pelos personagens. Até as relações humanas explicitadas no filme se dão de modo previsível. Quando, por exemplo, as mães falam a seu filho que tal vizinho amigo dele não é uma boa companhia, é óbvio que em dado momento do filme algo irá acontecer confirmando esta fala. E daí por diante.


Corrida pelo Oscar? Sim, este filme está lá. Ele parece preencher uma cota anual de “filme independente com pitada de  comédia”, tal qual, por exemplo, Pequena Miss Sunshine (2006). Além disso, o tópico da família pseudo-estruturada que se ama aparece também com toda força. A criatividade e tom ligeiramente absurdo do roteiro deste outro filme, porém, nem de perto despontam em Minhas mães e meu pai. Se alguém merece ser considerado como a coluna vertebral deste filme, esta é Annete Bening. Mais do que isso, é um tanto quanto curioso vermos a mãe de Beleza americana (1999) fazer uma figura quase patriarcal aqui, totalmente adversa à passividade de Kevin Spacey, o efetivo patriarca do filme de Sam Mendes.


Junto ao título original de “The kids are all right”, podemos concluir que o incômodo aqui se dá por essa ambiência excessiva de “all right” do filme. Como diz o The Who, “I don’t mind other guys dancing with my girl” (Eu não me importo que outros caras dancem com minha garota); o espectador, por sua vez, sai da sala de cinema também “não se importando” muito com o que acabou de assistir. Não se trata de um filme ruim, mas apenas mais do mesmo.


(texto publicado original na RUA - Revista Universitário do Audiovisual em fevereiro de 2011)