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domingo, 16 de janeiro de 2011

As Tentações do Doutor Antônio (Federico Fellini, 1962)


Roma, década de 60. Jovens, o Cinecittà no seu auge e a explosão internacional da commedia all’italiana. De forma rápida, é deste modo que Fellini dá o tom introdutório do seu média-metragem “As tentações do doutor Antônio” (“Le tentazioni del dottor Antonio”), de 1962, inserido dentro do longa-metragem episódico “Boccaccio 70”. Como o seu título aponta, esta reunião de médias, que também contou com as mãos de Mario Monicelli, Luchino Visconti e Vittorio de Sica, trata-se de uma série de pequenas histórias em que o moralismo às avessas do “Decamerão” se faz presente.

Após o charmoso curta-metragem inicial de Monicelli, “Renzo e Luciana”, somos presenteados com o filme de Federico Fellini. Creio que o tópico central do filme pode ser resumido ao título de um vídeo de Lygia Pape realizado em 1976: “A gula ou a luxúria?”. Nosso personagem central, o doutor Antonio, tem a censura como sobrenome tal qual um sacerdote medieval. Seu enfoque único, porém, é o caráter público da luxúria. Sua figura surge junto aos créditos iniciais do filme. Ele se encontra a limpar seus óculos e encara o espectador. Logo após, coloca-os e encarna a iconografia do intelectual. Mais do que isso, limpar os óculos significa ver melhor. É necessário fazê-lo para que ele possa praticar seus atos de vigilância por Roma.
E estes são incessantes. Estacionamento de carros, um espetáculo de dança e até uma senhora a portar um vestido curto são atacados por seu olhar agora límpido e língua afiada. Os óculos de Antonio apenas são desafiados quando se constrói um monumento em um terreno descampado.


A seqüência de imagens que mostra a montagem de um outdoor com a imagem de Anita Ekberg é sinuosa e toda dada por rápidos movimentos de câmera e de personagens. Do mesmo modo, a mente do personagem central atordoada fica; fez-se necessário tirar e colocar novamente os óculos para se acreditar na gigante voluptuosidade da imagem de Ekberg. Mais do que isso, trata-se de uma peça publicitária de leite.

Uma imagem que seduz por si só devido à beleza da mulher estampada (curiosamente, não se trata de uma fotografia, mas de uma grande gravura com pitadas de pop art) e que vende um produto naturalmente dúbio: leite. O mesmo leite fornecido pelas mulheres aos seus filhos, como Antonio verbaliza algumas vezes. Imagem esta que também remete a aquilo que se faz necessário para que a mulher conceba uma criança: esperma. E é justamente um trauma do ato do gozo que leva Antonio à sua militância contra a exposição do corpo feminino.

Anita Ekberg aqui é uma espécie de Olympia dos anos 60. Assim como o famoso quadro de Édouard Manet, exposto no Salão de Paris de 1865, recebeu diversas críticas negativas do público, chocado com a literalidade do nu de uma prostituta pintado a óleo, a publicidade em grande escala causa desgosto no filme de Fellini. A diferença aqui é quantitativa; o desgosto se dá exclusivamente na figura do doutor Antonio. Muito pelo contrário, a população de Roma rapidamente transforma a propaganda, o aqui e agora, em monumento, tal qual a “Fonte dos quatro rios” na Piazza Navona.


Do mesmo modo que com imagem e som, a imagem de Akberg diz “Bevete più latte” (“Bebam mais leite”), a figura de Antonio se entrega à sedução da imagem. Pela primeira vez, seu objeto de ódio foge da escala humana ou da natureza-morta e ganha uma dimensão igualável à própria paisagem arquitetônica. Não cabe mais agir de dentro para fora, destruindo a imagem dada. A musa do cinema faz com que as transformações se dêem dentro do próprio Antonio.

Nesse sentido o filme de Fellini é uma espécie de ensaio que pode ser muito bem aplicado ao mundo contemporâneo: é inevitável nos seduzirmos pelas imagens. A própria sensação de repulsa de um tipo físico não deixa de ser também uma sedução. Foi preciso que aquilo pungisse, “seduzisse”, para que existisse o esforço na repulsa. É inevitável, contemporaneamente e também neste momento em que os outdoors são integrados ao classicismo da cidade de Roma, que gula e luxúria andem juntos; escolher não é mais possível. Trata-se de uma via de mão dupla.

(texto publicado originalmente na RUA - Revista Universitária do Audiovisual em janeiro de 2011)