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quarta-feira, 15 de abril de 2009

Sobre o É Tudo Verdade 2009

Esta foi minha primeira experiência com o famoso festival de documentários É tudo verdade, realizado em terras cariocas entre 26 de março e 05 de abril. Duas sessões e apenas nove curtas-metragens nacionais em competição. Sete produções do sudeste (Rio, Sampa e Minas), uma de Brasília e outra de Pernambuco. Devido a este restrito número de curtas, parece mais adequado fazer comentários individuais e, como me foi sugerido após uma leitura de meu texto anterior, respeitar os programas montados pela curadoria e sua seqüência de filmes.

Assisti às noves propostas audiovisuais no mesmo dia, domingão dublado do dia 29 de março. Abrindo a seleção um curta que assisti no 1º Festival do Júri Popular, mas que deixei sem comentários, “No tempo de Miltinho”, de André Weller. Uma interessante junção entre simpatia do entrevistado, rápida edição e utilização de animações e imagens de arquivo que sublinham suas falas, a obra acabou por se destacar dentro da sessão. Não se trata de um documentário em que a pesquisa de linguagem (vulga “experimentação”) é percebida em primeiro plano; a opção por um formato levemente “talking heads”, baseado no depoimento, aponta para o lado oposto a isso. Porém, o seu tema é tão atraente (a música, o ritmo e, por fim, o tempo) que o espectador acaba seduzido pelas rugas e marcas na vida do senhor Miltinho.

Indo por outro caminho, o do “documentário de observação”, temos Chapa, de Tatiana Toffoli. Enquanto “No tempo de Miltinho” tem precisão técnica, cuidado em seus efeitos visuais e foco em um ícone da música brasileira, esta outra obra aponta para a entropia da cidade de São Paulo: uma câmera distante, estranhos que andam e recortes de momentos rápidos de suas vidas. Placas que indicam o nome dado ao trampo destes homens e o cinza do concreto e da fumaça dos caminhões que os mesmos orientam. A relação dos filmados com a câmera é tão distante e mesmo, talvez, indiferente, que em alguns momentos me senti imerso nesse universo de anônimos homens (apenas sei que são “chapas”) e como que a fruir uma ficção. Temos aqui um interessante contraste entre propostas audiovisuais proporcionada pela seqüência criada pela programação do festival.

Dialogando mais com o segundo filme há também “Leituras cariocas”, de Consuelo Lins. Também um embate com anônimos, porém o que os une é o metrô do Rio de Janeiro. Enquanto em “Chapa” o nó é dado pela profissão, aqui este é um lugar, ou melhor dizendo, um não-lugar: um espaço entre, um meio de transporte. Importante: um meio, nunca um fim. As pessoas não vão até o metrô, mas sim passam por ele. O fim está fora dali. E o que elas têm em comum? A leitura. Desde o torpedo de celular até o músico que lê partituras. Co-criando com os filmados, a diretora pede para que eles leiam em voz alta o que antes fariam apenas com os olhos. Um mosaico de pessoas e de finalidades de leitura dentro deste meio.

E “Confessionário”, de Leonardo Sette? Um plano-seqüência e um relato de experiência de viagem. Um estrangeiro e uma narração (de dificílima compreensão sem as legendas) acerca de suas experiências com índios no Brasil. Um retorno ao “Brasil dos viajantes”? Talvez, mas desta vez lançando o olhar de forma diversa: o tupiniquim lança seu olhar (que sempre será seqüenciado) sobre o “outro” que, por sua vez, verbaliza sua experiência com o seu “outro”, ou seja, o tupiniquim. Nem o tom de celebridade de Miltinho, nem a câmera que passeia entre chapas, nem a fusão de vidas no metrô: aqui o clima é árido e o tempo se arrasta (e precisa de muletas).

Falando em aridez, nada mais justo do que seguir com “Ser tão”, de Luiz Guilherme Guerreiro, que aponta para este clima em seu título e mesmo no lugar onde foi filmado, a histórica cidade de Canudos, onde Zé Celso Martinez Corrêa e sua companhia de atores também encenaram seu grande sucesso “Os sertões”, baseado nos relatos de Euclides da Cunha. O curta acaba sendo uma mistura entre depoimentos do elenco e outros mais relacionados à produção do evento, falas dos moradores da cidade e registros da peça. O mix é tamanho que em alguns momentos a tela divide-se em imagens simultâneas e de recortes diferentes. A estrutura do filme parece um tanto quanto confusa e fez que eu concluísse que talvez fosse mais interessante se o enfoque estivesse em um criar em conjunto com o diretor teatral e, conseqüentemente, recriar (documentar?) estas leituras do texto de Euclides. Os elementos do filme são múltiplos e pouco profundos; vemos apenas sua superfície. Acho que faltou mergulhar de cabeça nessa experiência do Teatro Oficina. (É a mesma crítica que faço, por exemplo, a um filme como “Corpo de Bollywood: o povo quer cinema”, de Raquel Valadares e exibido no Festival Brasileiro de Cinema Universitário deste ano: o tema é obviamente interessante, mas o formato, a forma do filme, acaba por distanciar o espectador da experiência daquilo, do cinema neste caso, ou de Zé Celso no outro caso).

Pausa para a segunda sessão. Tomar um balde de cappuccino e voltar ao Unibanco Arteplex. A seqüência Chapa-Leituras Cariocas-Confessionário, mesmo que interessante e coerente, é difícil e lenta, fazendo com que algumas pessoas dentro do cinema em Botafogo tenham, literalmente, apagado ao meu lado.




Dos corpos dos atores de teatro para a cultura oral do “samba caipira” de São Paulo: “Samba de quadra”, de Gustavo Mello e Luiz Ferraz. Segunda sessão e segunda vez que um filme sobre música é o abre-alas. De modo diferente, os diretores aqui conseguem mesclar os rostos enrugados e até então desconhecidos do público que proporcionam falas nostálgicas com amostras de seus espaços privados. Não é à toa que vemos estes senhores e senhoras cozinhando dentro de suas casas, entre um papo e outro. Assim como “No tempo de Miltinho” temos aqui uma obra que gira em torno do tempo; não dentro da escala musical, mas sim o tempo das mudanças, o tempo que já transcorreu essas vidas e, acima de tudo, poderia dizer que é um filme sobre saudade. Saudade de como se fazia música antigamente e, nas entrelinhas, falta da juventude, falta daquele tempo bom que não volta nunca mais.

Dos corpos enrugados para os daqueles que são ou gostariam de ser dançarinos: “A arquitetura do corpo”, de Marcos Pimentel. Planos dos pés torcidos, planos das mãos para o ar. Imagens marcantes e longo tempo de exposição. O espaço dos ensaios, a vida lá fora e os momentos em que tentamos unir, talvez de forma vã, as duas coisas. O aplauso ao fim e o rigor daquela que adestra o corpo. As tentativas e erros. Diferentes idades do homem. A frustração dos que falham, a felicidade dos que persistem e concretizam suas vontades através de torções, através de dança. Silêncio por parte daqueles que são filmados e mais uma potente edição de som do Grivo. Meu curta-metragem favorito desta seleção? Talvez.

Dos corpos atléticos e variados para a micro-história de um imigrante: “Nello’s”, de André Ristum. Como em “Samba de quadra”, mostrar o cozinhar é igual a entrar na intimidade do documentado. Aqui, porém, isto é indicado no título mesmo do filme, Nello’s, o nome do restaurante de Nello’ de Rossi, italiano que ao Brasil chegou nos anos 70. Desejos de ser ator e diretor de cinema contrastados com a necessidade de se conseguir o ganha-pão. Assim como o primeiro curta de sessão, uma obra sobre o tempo e, dialogando também com o curta de Marcos Pimentel, sobre a concretização de planos e sonhos, mas no campo do audiovisual. Assumidamente um filme “talking heads”, sem a potência visual de “No tempo de Miltinho”, mas que acaba por seduzir o espectador pelo carisma daqueles que falam.

Dos imigrantes para os trancafiados: “A casa dos mortos”, de Débora Diniz. Co-criação: participação mais que ativa dos internos de um manicômio judiciário de Salvador com a câmera, a diretora e o espectador. A própria estrutura da obra é baseada na poesia de um deles. Mais solitários do que o “solitário anônimo” do filme anterior da diretora, mas com nada de anônimo: estes homens podem ser qualquer coisa, como em um momento um deles explicita. Podem ser o “governo do Estados Unidos” e Deus, ao mesmo tempo. São mortos-vivos, como seu título mesmo indica de leve. São empurrados pelo seu ambiente, vivem em conjunto e separadamente ao mesmo tempo, e flutuam com muita naturalidade pelas mortes, partidas e retornos desta grande casa. O que une esses homens é a sua arquitetura deveras mal-conservada.

Se tudo é verdade eu não sei (e acho que nem quero saber). Diversos dos filmes esbarram assumidamente no campo da ficção, nem que ela seja encenada pelos documentados. Para saber se tudo é verdade, primeiramente deveria definir o que é verdade. Para engavetá-los como documentários deveria antes distinguir os outros gêneros. Como não consigo acreditar de forma acrítica nestes rótulos (isso porque nem toquei no pior deles, o “experimental), acho mais justo concluir que os filmes mostrados tocam em pontos comuns em graus diferentes: o tempo, os corpos daqueles que foram perpassados por ele e os espaços em que essas fisicalidades habita(va)m e que também estão em processo de deterioração. E estes filmes estão aí para isso: não deixar que esses indivíduos, anônimos ou não, “passem em branco”, sejam detonados pelo tempo e sem registro. “Não deixe o samba morrer, não deixe o samba acabar”.

(texto publicado originalmente na RUA - Revista Universitária do Audiovisual em abril de 2009)

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