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segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Sobre o azul

Resenha da exposição “As coleções do Museu Nacional do Azulejo de Lisboa”. Centro Cultural FIESP, Galeria de Arte do SESI. Avenida Paulista, 1313, São Paulo, SP. Entre 8 de abril e 20 de julho de 2008.

Ao caminhar pela extensa Avenida Paulista, deparo com uma vitrina, objeto-chave quando o assunto é expografia. Do outro lado do vidro, incitando minha entrada em um edifício, o extenso panorama de uma cidade portuária, pintado sobre azulejo. O contraste entre os tons de cinza comuns a São Paulo e o azul que representa uma grande área marítima é gritante. Trata-se de um convincente convite para a contemplação da exposição “As coleções do Museu Nacional do Azulejo de Lisboa”. Se externamente suspeitamos que esta seja pequena, ao adentrarmos a Galeria de Arte do SESI e circular suas salas, ficamos impressionados com a quantidade de obras distribuídas ao nosso olhar.

O “Grande panorama de Lisboa” é o cartão de visita de outro panorama: o da relação entre Portugal e a produção artística com azulejo. É ponto comum na historiografia afirmar que em terras lusitanas existe uma longa tradição no lidar com a azulejaria. Parece ser mais interessante lermos esta exposição de uma outra forma, a partir das relações possíveis destas imagens apresentadas com um leque de fluxos artísticos presentes não apenas no que diz respeito à azulejaria, mas sim à arte em Portugal como um todo.

Constata-se uma série de modelos artísticos, como, por exemplo, em uma obra na qual é possível estabelecermos relações com o célebre “Triunfo de Galatéia”, de Rafael Sanzio, ou quando vemos a produção do século XVIII e é inevitável vir à nossa mente algumas pinturas de Fragonard e seus conterrâneos. Além disso, é interessante notar também os diálogos com a produção dos chamados “artistas viajantes”, no que diz respeito a uma vontade de decoração através da presença de animais e plantas exóticas, o que leva a uma obra como “Caça ao leopardo”, em que temos a presença de índios caçando dentro de uma floresta rica em vegetais. Da mesma forma que as três artes do desenho portuguesas caracterizam-se pela influência de grandes pólos artísticos, podemos perceber esses intercâmbios também na azulejaria.

Se a exposição ganha com a variedade na escolha das obras, por outro lado parece pecar no que diz respeito a uma maior contextualização das mesmas. O folder desta insiste em informar-nos quanto à relação intrínseca dos azulejos para com a arquitetura, já que eram planejados de acordo com seu destino expositivo. Entretanto, em nenhum lugar encontra-se qualquer tipo de nota ou comentário mais profundo sobre este “pensamento parietal”. Além disso, nem mesmo informações técnicas sobre o processo artesanal da realização dos objetos é dada, algo satisfatoriamente realizado em outras exposições como “Impressões originais: a gravura desde o século XV”, no CCBB-RJ e CCBB-SP. 

Somando a estes dados, devemos levar em consideração também a estrutura narrativa da exposição: uma “história do azulejo”. Começamos nas salas do século XVI, cruzamos com o “rococó” e o “neoclássico” e “voltamos para o futuro”, chegamos ao presente: a “modernidade” e a “pós-modernidade”. O projeto expográfico insere-nos num percurso muito claro, limitando o espaço para que o observador crie relações possíveis entre as obras, ao colocá-las em seus recortes históricos. Como o próprio folder afirma, esta coleção de obras permite “... acompanhar a evolução desta arte em Portugal, apresentando-se cronologicamente estruturada ao público que a visita” (grifo meu). 

Enquanto nos azulejos dos séculos XVI e XVII, principalmente, havia uma representação do exotismo tropical americano, nas obras feitas por artistas contemporâneos a nós (os “pós-modernos”, como sugere a exposição) este anterior processo (etnográfico?) de construção plástica vira o irônico tema das obras. É interessante constatar que na maior parte das obras recentemente produzidas expostas, os azulejos ainda servem como base para a representação de algo que, comumente, revê sua própria tradição nacional. Os azulejos são como telas e as relações originárias com a arquitetura levemente desvanecem, dando espaço, por exemplo, para experiências com a escultura sobre azulejos. 

A potência das obras apresentadas faz com que os problemas relativos à expografia fiquem em segunda instância. Mesmo segmentados, os objetos apresentados dialogam como que por si só: o azul ainda está lá. Este azul que compõe a própria palavra-chave desta exposição e é fruído seja nas experiências óticas de um Eduardo Nery, seja nos motivos heráldicos das primeiras peças encomendadas em Sevilha, as possíveis sementes desta importante relação entre Portugal e a azulejaria.

(texto publicado originalmente na Arte & Ensaios de dezembro de 2008)

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