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domingo, 9 de novembro de 2008

Sobre o Primeiro Plano – Festival de Cinema de Juiz de Fora e Mercocidades

(realizado em Juiz de Fora, entre 27 de outubro e 02 de novembro de 2008)

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Como o seu próprio nome parece indicar, o Primeiro Plano é um festival dedicado à projeção dos primeiros filmes de diretores brasileiros (em competição) e sul-americanos (em mostras informativas). Desta forma, muitos dos curtas-metragens exibidos são “filmes de escola”, em geral realizados como parte do projeto de conclusão de curso de alunos de graduação em audiovisual. Após quatro anos comparecendo ao festival, não é surpresa encontrarmos semelhança entre sua grade de programação e a do Festival Brasileiro de Cinema Universitário, por exemplo, ou mesmo com as sessões Cinema em Curso, integrantes do Festival Internacional de Curtas de São Paulo.

Um significativo diferencial desta edição para as outras é a inclusão de filmes realizados em vídeo, o que possibilita, em teoria pelo menos, uma diversificação ainda maior do leque de propostas audiovisuais de diretores estreantes. Como já se pode ter pensado, o tamanho dessa janela de exibição (31 curtas) acaba sendo menor do que a de outros festivais, justamente devido a esse recorte temático voltado às estréias. Coroando a bacana proposta está a geografia: a cidade de Juiz de Fora, pequena e recheada de um público que responde de forma animada às quatro sessões competitivas de curtas no histórico cinema Cinearte Palace.

Como qualquer outro festival de cinema, temos aqui altos e baixos no que diz respeito ao recorte da curadoria e às críticas do espectador. De forma semelhante ao FBCU, aqui também encontramos alguns casos do que chamo “filmes de apartamento”, ou seja, curtas em que temos personagens principais trancafiados em espaços domésticos e, aparentemente, em “crise existencial” (com aqueles clássicos planos de homens gritando, correndo, chorando e etc, que geralmente apontam para um comportamento freak e desesperado dos personagens) – o caso de “Partida”, de Daniel Lentini e “Pata de elefante”, de Fernanda Rocha Miranda. Outra boa safra é a dos “filmes verborrágicos”, em que o texto parece dominar a vontade de se pesquisar através das imagens em movimento. Tudo fica muito óbvio e é preciso ser justificado através do abrir a boca dos personagens. É preciso dar explicações e limitar a co-produção criativa do espectador. “Páginas de menina”, de Monica Palazzo, “Oxicianureto de mercúrio”, de André Carreira e, principalmente, “A ética”, de Pablo Villaça (o curta de quinze minutos que parece ter cinqüenta), despontam nessa modalidade.

Por fim, em menor número, mas não menos importante, como comentei no texto sobre a Mostra Curta Audiovisual de Campinas, lá estão os documentários em que as cabeças falam e os filmecos feitos para darmos risadinhas (o previsível “Quintas intenções”, de Mauricio Rizzo). Interessante que dois encaixáveis no primeiro exemplo (“Criador de imagens”, de Diego Hoefel e Miguel Freire, e “Quanto mais manga melhor”, de Michele Lavalle) são dedicados a profissionais do cinema e tentam contrastar depoimentos a imagens de arquivos pessoas ou trechos de outros filmes – mas a documentação rotineira do depoimento acaba prevalecendo.

Quais curtas conseguiram ir para além dos lugares comuns encontrados nos festivais? Não irei repetir meus breves elogios ao “A tal guerreira”, de Marcelo Caetano (também projetado em Campinas), uma ode a Clara Nunes. Fui arrebatado por outro documentário, “Gladys”, de Marina Pessanha. Trata-se de imagens que acompanham Gladys Ribeiro, dita a primeira apresentadora de programas infantis da televisão brasileira por um passeio até a antiga sede da TV Tupi. Tudo me levava a imaginar que houvesse choro, lamentação e nostalgia barata, mas não; Gladys é forte o bastante para ter um distanciamento deste passado em ruínas. Ao mesmo tempo em que relembra de forma saborosa alguns momentos de sua fama, não se desespera com seu aparente esquecimento vindo com o passar de seus anos. Como as cartelas finais do curta metralham ao espectador, não foi encontrado material audiovisual relativo ao “Gladys e os bichinhos” e, portanto, a memória relativa ao programa de televisão está contido na figura desta carismática senhora. Este curta soma positivamente nesse sentido: preserva a memória de algo que talvez fosse ser perdido entre a história oral e os recortes de jornais antigos. A estrutura “talking head” faz-se presente, mas é intercalada com esse levemente melancólico passeio de Gladys pela Tupi, sempre em planos abertos, mostrando o contraste entre a idosa mulher e as ruínas arquitetônicas. Além disso, temos as animações que reativam seus até então estáticos desenhos em papel branco, da mesma forma que esta obra dá vida a um aspecto pouco comentado da história da televisão no Brasil.

Também não me deterei aqui, novamente, em “Os boçais”, de Lufe Bollini, exibido também em Campinas e no FBCU deste ano. Outros curtas exibidos neste último festival merecem algumas pinceladas. Dentre eles o de um amigo e parceiro criador de Bollini, “Sem mais delongas”, de Frederico Ruas, que poderia ganhar o título de “melhor filme bad trip” do festival. Como em “Os boçais”, a metralhadora de referências cinematográficas faz-se presente (o preto-e-branco das cores, a utilização da música ou mesmo o nonsense de alguns diálogos), mas não pela objetividade do humor boçal, cantado e celebrado pelo filme de Lufe Bollini. Temos na obra de Frederico Ruas uma crise quase adolescente do personagem apresentado. Lá estão os planos que eu critiquei logo acima quanto a outras obras, ou seja, o homem que vaga e grita pela cidade. Temos aqui, todavia, um cuidado na construção das imagens através de uma potente direção de fotografia, capaz de granular o preto-e-branco do começo e, ao fim, mostrar um nascer do sol digno de uma paisagem romântica.

“Sistema interno”, de Carolina Durão, também foi exibido no FBCU deste ano e pode ser lido pela dualidade pessoal/impessoal, homem/tecnologia digital, ou melhor, homem/natureza. As imagens nos são apresentadas como advindas de câmeras de vigilância que acompanham uma mulher em um dia de trabalho, até mesmo ao seu espaço doméstico. Mesmo aquelas que não advém da vigilância, utilizadas como “respiração” para estas, denotam a tecnicidade das relações humanas: o contraste entre a pesada arquitetura modernista do MAM-RJ e as crianças que são comandadas por uma adulta, as portas de vidro que abrem e fecham automaticamente e os cachorros que descansam, os carros que cortam avenidas por entre as árvores do aterro do Flamengo. Minha única implicância está na televisão que a personagem possui em casa e que não pára de exibir notícias relacionadas (obviamente) à “tecnologia” e que explicitam o que estava potencializado nas entrelinhas construídas anteriormente.

Uma das bailarinas de “Coda”, de Marcos Camargo, chega mesmo a se transformar em um pássaro, denotando a constância na produção contemporânea da problemática relação entre o homem e o seu redor já domesticado – assim como boa parte das obras que encontrei na Bienal de São Paulo deste ano. Tudo é encenado dentro de um apartamento e suas duas companheiras (que, importante frisar, não realizam intercâmbio) travam batalhas com a água e o fogo, levando a um inventário dos fenômenos naturais que viraram apenas mais um elemento em nossas vidas. “O povo atrás do muro”, de Marconi Loures de Oliveira, uma divertidíssima animação com um trabalho de som memorável, nos convida a essa reflexão também ao propor um grupo de personagens que não consegue lidar com a existência de diferenças culturais em seu espaço próximo – o outro lado do muro. Ainda será impossível estabelecermos um contato sem pré-conceitos para com o outro? Felizmente, o diretor opta pela não utilização de diálogos e permeia seus personagens por ruídos não reconhecíveis a nós, do domínio da língua e da verbalização dos discursos. Os preconceitos demonstrados aqui, para nós, estranhos à linguagem oral destes personagens animados, limitam-se à incongruência visual dos mesmos (por mais que sejam identificáveis algumas atribuições de elementos da cultura norte-americana ao lado dos preconceituosos).

Realizado com um celular e problematizando os limites entre documentário e ficção, “Divergrandpa”, de Igor Amin, propõe uma reaproximação entre alteridades de um mesmo tronco, ou seja, da mesma família, entre neto e avô. Tudo pelo viés do celular, da tecnologia digital e da crítica à naturalização da distância. Como diz uma bela frase do vídeo, “Esse é o meu avô. Ele é como um Windows para mim”. Curto, simples e nada objetivo. Voltando aos filmes já exibidos no FBCU, mas sem deixar de lado a temática das relações interpessoais, temos “Até amanhã”, de André Bomfim. É o último dia do ano, aquele momento quase cafona de repensarmos nossos 365 dias percurso e nosso personagem masculino principal é incapaz de exteriorizar seus sentimentos para com uma amiga. Vemos e ouvimos um fluxo de desencontros por São Paulo, somado a algumas pequenas simbologias (como o fato dele estar com a chave da casa dela ou mesmo o momento em que o freio de mão de um carro é puxado quando em movimento) e mediado pela presença da caixa postal de um celular – novamente a tecnologia digital marca presença.



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“O cineasta, a menina e o homem-sanduíche”, de Daniella Saba, também sugere um encontro paulistano como possível temática. Os três personagens do título são demonstrados através do intercalar de planos próximos a suas faces e de outros contrastando suas figuras com o cinza da cidade. Ao fim, após possíveis pequenos fracassos, eles como que se esbarram e travam um diálogo breve que envolve pirulitos, dobraduras e, por quê não?, o cinema (já que um deles é apresentado como um diretor buscando financiamento para sua obra). A trilha sonora do curta hipnotiza assim como o ioiô que a menina porta no primeiro plano do mesmo. Fica a pergunta do cartaz do homem-sanduíche: “Eu estou OK. Você está OK?”.

Já o (merecidamente) super premiado “Os sapatos de Aristeu”, de Luiz René Guerra, versa sobre as relações entre familiares. Como uma mãe e irmã lidam com a morte de Aristeu, uma vez travesti? Enterrar como homem, tentar trazer a “ordem” de volta a seu corpo, ou assumir sua vontade e encará-lo enquanto uma mulher? A atriz Berta Zemel, ao cortar os longos cabelos de seu filho, parece estar a trabalhar em uma lavoura e puxar alimentos com força, tentando romper suas raízes, tamanha é a força que aplica à sua tesoura. Cabelos como cordões umbilicais. A opção pelo preto-e-branco, o diálogo possível com a tradição das gravuras à ponta-seca, realça os veios, rugas e a densidade desta desestruturada família em que a irmã, deveras masculina, critica a feminilidade de seu irmão. Não resta outra opção senão, à força, deixar coexistir o homem e a mulher em Aristeu, através de seus sapatos. É preciso respeitá-lo e desejar que este “vá embora”, voe livremente, como suas pontas de cabelo genealogicamente guardadas por sua mãe.

Finalizando o festival, na quarta sessão (que era a mais risível, no bom sentido, de todas elas) estava presente “Maridos, amantes e pisantes”, de Angelo Defanti. Baseado em contos de Luis Fernando Veríssimo, o curta tem como pontos positivos o entrosamento dos atores e a velocidade de seu humor. Somando a isto temos a opção por assumir que se trata da filmagem de algo, já que vemos a todo o tempo o boom, quase que um personagem dentro da narrativa. Pensando também o cinema, ou seja, utilizando-se da metalinguagem, mas em primeiro plano e não como detalhe da ficção, temos o vencedor do voto do público “Os filmes que não fiz”, de Gilberto Scarpa. Como o título aponta, o tema aqui é a não concretização de filmes, o espaço para fantasiarmos imageticamente estranhos argumentos deste diretor/ator que é o próprio diretor do curta-metragem, que opta por utilizar-se do formato do pseudo-documentário (em um tom bem diferente de “Satori Uso”, de Rodrigo Grota).

Estes filmes não feitos sugeridos por Scarpa nos levam às gargalhadas. Destas chegamos a um sorriso no rosto, constante a este festival de cinema em Juiz de Fora. Intimista, aconchegante, com uma seleção de curtas permeada por altos e baixos (como todo festival, creio eu), mas que, mais importante do que a qualidade dos filmes, dada pelos espectadores, faz-nos pensar sobre a importância de existir uma janela de exibição exclusiva para os primeiros produtos desses diretores. Faltou-me tempo para assistir as sessões competitivas de curtas produzidas nos arredores de Juiz de Fora, agora intitulada “mostra competitiva regional”. Esforçar-me-ei no ano seguinte. De qualquer forma, como dizia uma vinheta exibida nos anos anteriores do festival, relativa à prefeitura da cidade, “Eu amo Juiz de Fora!”.

(publicado originalmente na RUA - Revista Universitária do Audiovisual em novembro de 2008)

Sobre a 3ª Mostra Curta Audiovisual

(realizada em Campinas, entre 17 e 24 de outubro de 2008)

Se Campinas é, como se costuma dizer, a segunda maior cidade de São Paulo (e a maior cidade dos vários “interiores” do Brasil), é uma surpresa constatar que essa mostra de curtas-metragens esteja ainda em sua terceira edição. Basta passarmos rapidamente nossos olhos no Guia Kinoforum de Festivais de Cinema e Vídeo (http://www.kinoforum.org.br/guia/2008/index.php) para constatarmos que cidades menores já se encontram inseridas no circuito dos festivais – ou, se preferirem, no “mercado de festivais”, como debatido na mesa de comunicações dessa temática na SOCINE deste ano.

O festival contou com duas salas de exibição. A primeira, simpática e com uma boa qualidade de projeção, no MIS (Museu da Imagem e do Som) de Campinas. O outro espaço, um dos auditórios do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP, apresentou uma série de problemas, principalmente no que diz respeito ao áudio dos vídeos projetados, o que comprometeu a fruição de algumas obras. Outro dado relativo a este espaço e que merece ser lamentado era o esparso público presente; cheguei a assistir a mais de uma sessão sozinho no espaço. Triste pensar que na própria universidade em que existe um curso de Midialogia os alunos não marcavam presença.

Por falta de tempo disponível, decidi por assistir ao que parece ser o filé mignon da mostra: as sessões de curtas-metragens. Como o pequeno programa afirma, foram 200 inscrições, 74 curtas selecionados e 12 sessões programadas. O tempo total destas, grosso modo, variava entre 1h10 e 1h20, não chegando a cansar o espectador. Infelizmente, nas minhas corridas entre salas de projeção, acabei perdendo dois curtas – “A psicose de Valter” e “6.5 megapixels”. Procurei alucinadamente via internet algum website que os disponibilizassem online, mas nada. Vida que segue e cabeça que pira com outros 72 filmes para ficarem se movimentando perante meus olhos.

Voltando às palavras do programa, desta vez ao texto do comitê de seleção, parece justo fazer uma breve citação:

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A acessibilidade tecnológica aliada ao alargamento dos espaços de exibição é o que pode fazer com que esta produção seja mais auto-crítica e possa se pensar como curta-metragem, principalmente os de baixo orçamento, independentes, cheios de potência criativa.

A questão que surge é: por onde anda esta “potência criativa” dos vídeos exibidos? Que a maior parte deles tratava-se nitidamente de produções sem financiamento estatal é claro e louvável, da mesma forma que louvo este foco na Mostra do Filme Livre, realizada em terras cariocas. O problema, porém, é a aparente contradição entre este excerto de texto e a minha fruição das obras exibidas durante os quatro dias de mostra. O texto da organização do festival avisa que, diferentemente das edições anteriores, nesta terceira foram permitidas inscrições de curtas com até vinte minutos totais. Se em primeira instância esta iniciativa parece interessante, após assistir a todas as sessões é notável o caráter perigoso das tecnologias digitais.

Colocando de modo mais direto, o digital abre as portas para que qualquer um faça qualquer coisa e, mais importante do que isso, “queime” fitas Mini-DV e produza obras de enorme duração (que, sim, chegam aos vinte minutos agora aceitos) e não tenham um olhar mais cauteloso durante o processo de montagem de suas obras. Dessa leitura minha surge uma categoria de filmes que, junto à outra posteriormente aqui comentada, reinou durante a mostra: os curtas “talking heads” (termo este de autoria de uma amiga também diretora de curtas). Trata-se de documentários em que, aparentemente, o que importa é o depoimento dos seres documentados. Parece que estamos a assistir uma seqüência de bustos romanos, porém em movimento e, claro, com som. Nessa vertente eu poderia listar cerca de vinte curtas exibidos, ou seja, quase 30% do aprovado pela curadoria. Suas temáticas tendem a transcorrer pelo viés da alteridade cultural; estamos lidando com curtas que tentam retratar pessoas pitorescas e ambiências inusitadas – e aí temos o hip-hop no Espírito Santo, catadores de lixo de Campinas, a chegada do celular em uma pequena cidade da Paraíba ou até mesmo a tentativa de biografar Anselmo Duarte.

Os espaços para que respiremos entre os depoimentos é tão curto, chegando mesmo a poucos segundos de paisagem em alguns curtas, denotando uma clara ausência de vontade de pesquisar outras saídas dentro da linguagem audiovisual, que chego a me perguntar se algumas obras não teriam ficado mais interessantes se lidassem com fotografias e arquivos de som, em uma espécie de instalação em espaço museográfico. Pelo menos sobraria um espaço para além da obviedade, para a imaginação do espectador em cima da movimentação labial e facial daquela voz.

A outra constância encontrada por mim é composta pelos temidos “filmes piada”, ou seja, aquelas curtas que parecem existir apenas para darmos uma risadinha (ou para que lágrimas de reprovação escorram). Geralmente possuem um caráter narrativo e uma conclusão um tanto quanto óbvia e estereotipada – vemos na telona machismo nos relacionamentos amorosos, leves preconceitos em relação a classes sociais e ausência de poesia.

Gostaria, caso houvesse tempo e espaço, de destrinchar todas as setenta e duas obras que assisti; escrever textos individuais mesmo. Na ausência destes e já tendo destilado minhas críticas negativas à considerável fatia audiovisual da mostra, cabe agora comentar abertamente as poucas surpresas. Não me deterei em filmes já muito circulados por festivais e que, se não os julgo bons, ao menos considero sua exibição importante para suscitar debates, como é o caso de “Solitário anônimo”, de Débora Diniz, que esbarra diretamente na questão da ética nos documentários, ou mesmo “Engano”, de Cavi Borges, que tem como ponto positivo a utilização de planos seqüência e uma certa poética dos “encontros e desencontros” nas grandes metrópoles. Já tendo começado por elas, retornemos às obras em que as “cabeças que falam”, felizmente, são apenas um detalhe.

Mesmo tendo pegado do segundo quarto do filme (sim, parece importante assumir isso aqui), “O arquivo de Ivan”, de Fábio Rogério, merece destaque dentre o panorama. Se a vontade de documentar Ivan Valença está ali em uma linguagem que poderia ser banal, isso é quebrado pela edição que intercala suas secas falas com imagens fixas do silencioso arquivo. Somando a isso há a opção por inserir imagens da própria equipe, aparentemente, “batendo claquete” com as mãos. Se o arquivo é composto por material relativo a cinema, o filme também acaba sendo sobre o processo de se fazer filmes. Impossível não ser tomado pelas palavras finais de Ivan, que tem consciência de que, ao morrer, levará junto o seu arquivo – e não seriam os documentários, assim como os retratos pintados e fotografias, uma tentativa de presentificar ausências? E os arquivos não são a vontade de preservação do passado, de memórias sociais/pessoais?

Falando em arquivo, marca presença positiva também “Ismar”, de Gustavo Beck – seria este um “filme de arquivo”? Talvez sim, já que maior parte das imagens trata-se de reapropriações de imagens televisivas, contrapostas às imagens mais recentes do Ismar que um dia teve seus quinze minutos de fama, com direito a lágrimas e Jô Soares. Também numa tentativa de resgatar a memória de um indivíduo, mas neste caso através de uma figura pública relevante à cultura nacional, temos “A tal guerreira”, de Marcelo Caetano. O filme investiga as formas de permanência da memória de Clara Nunes em dois espaços diferentes, mas relacionáveis pelo viés da incorporação: um travesti, uma boate, um playback da cantora; um centro de candomblé (ou seria umbanda?) e a transformação de Clara em entidade religiosa. Simples, também com presença de cabeças que falam, mas com preocupações na construção das imagens e na ambientação dos falantes. Potente e, para os fãs, talvez emocionante.

Tão tocante quanto, mas lidando com uma personagem até então desconhecida, “Minha tia meu primo”, de Douglas Soares, também trabalha com a proximidade entre câmera e entrevistado, mas sem a formalidade (câmera fixa, em um tripé, pessoas centralizadas no quadro) da maior parte dos documentários encontrados na mostra. O ganho desta obra é o carisma e o relacionamento afetivo entre diretor e tia-avó, que transparece para além das divertidas falas entre os dois e o canto do pássaro que o sobrinho-neto deve tomar conta, transbordando para as opções audiovisuais.

Em outro viés, “Vida de balcão”, de Luciano Coelho, também parece falar sobre a afetividade entre humanas, porém através da arquitetura, da cidade, dos armazéns curitibanos, daquele tempo em que as pessoas interagiam e as relações humanas não se encontravam tão automatizadas. A câmera é fixa, mas os documentados são apresentados em terceira pessoa; no lugar do “tu” de “Minha tia meu primo” temos aqui um “eles”, de aqueles senhores que ainda freqüentam esses espaços comerciais e que são como que xeretados – os enquadramentos dão-se através de brechas nesses espaços comerciais. Até quando estes espaços de convívio irão manter-se? Há um diálogo de linguagem entre esta obra e “Memórias de sombras”, de Douglas Pinheiro. Neste último caso, porém, os enquadramentos são mais ativos no sentido de, claramente, buscarem imagens esteticamente aprazíveis, mas que não apelem para o rosto das mulheres entrevistadas, atormentadas com suas lembranças de agressivos relacionamentos conjugais. Homens que viraram monstros e mulheres que se unem em busca da cicatrização do passado. Até quando estas humilhações serão arquivadas em suas memórias?

Seguindo nesta tentativa de construção de cruzamentos entre os curtas, mas já esbarrando em outras questões, temos “Dama da noite”, de Ythallo Rodrigues. Se a câmera inicia muito próxima de nossa personagem principal, na segunda metade do curta ela aponta para o distanciamento entre espectador e figura retratada. Essa distância, inclusive, incita-nos a dar alguns passos para trás e perguntar se esta mulher é uma atriz ou outra mulher sem anterior intimidade com a câmera. Seria uma stripper, com um corpo investigado pelos olhos dos mais variados homens, assim como a câmera investiga seu corpo suado?

E as pessoas que aparecem fantasiadas em “Contos de fada”? Diversos são os diretores, diversos são os fantasiados, diversas são as sintonias e as possibilidades de leitura da narrativa que parece transcorrer nessas imagens. Por outro lado, mais importante do que tentarmos entender o que ocorre, é perceber o maravilhamento destes que participam desta experiência artística, que está para além das prisões dos roteiros. Neste exemplo vemos (felizmente) os limites entre ficção e documentário desmoronar. Trabalhando com as vertentes de linguagem de forma mais estanque, definida, mas também em contraste, temos “Tempestade!”, de Douglas Siqueira (sim, temos três filmes interessantes com três Douglas como diretores), produção da casa, também exibido no Festival Brasileiro de Cinema Universitário, de alunos da UNICAMP e que assim como “Contos de fada” dá voz a alguém que geralmente não é ouvido: uma pessoa com deficiência física, um homem cego. O curta opta por mesclar momentos mais documentais deste falando sobre sua rotina com intervenções de um ator/poeta que vaga pela areia de uma praia e discorre versos que tangenciam a temática do olhar. O ápice das imagens é no momento em que há um embate entre este que fala e um grupo de pessoas, em uma irreal refeição às margens do oceano. O contraste entre linguagens antes apresentado aqui é retomado na contraposição entre os pontos-de-vista do jovem rapaz e dos nouveaux riches que instiga.

Outro filme também exibido no FBCU deste ano e que, junto ao fim próximo desta escrita, merece destaque dentre as assim chamadas “ficções” exibidas na mostra, é “Os boçais”, de Lufe Bollini. Uma verdadeira salada mista de referências: um cabaré, dançarinas à la Moulin Rouge, um musical, rock n’ roll, escatologia, sangue e esperma. Machismo? A mim essa leitura não cabe, já que o desenrolar dos atos dos personagens rapidamente rascunhados parece compor um certo mosaico de sua própria boçalidade – “o importante é saber chupar”, como diz um dos personagens principais. O rock n’ roll também faz parte da ambiência de “26 de dezembro”, de Carlos Segundo e Chico de Assis, em que um homem vestido de Papai Noel (ou seria o próprio?) tira um dia de descanso pós-Natal. Música alta, caos dentro do espaço doméstico e cerveja são necessárias. Pêlos e um corpo anti-clássico ganham o primeiro plano. Enquanto em “Os boçais” a montagem e a movimentação de câmera têm velocidade inquietante, a este senhor de barba branca coube ser acompanhado por uma lente que mais parece um mosquito prestes a picá-lo, devido à opção pela câmera na mão e pela forma como passeia próxima a seus objetos. Propostas diferentes que denotam algo pouco encontrado dentro da Mostra Curta Audiovisual e por este que escreve muito valorizado: a pesquisa de linguagem, a busca por caminhos não óbvios na construção das obras audiovisuais. A tentativa de impressão de ousadia, seja pela grandiosidade, seja pelo comedimento. Seja pelo silencio de Ivan e seu arquivo, seja afetividade de Douglas Soares e sua tia-avó, seja pela verborragia do poeta tempestuoso ou seja pelos titubeios do mosquito que acompanha o (nem tão) bom velhinho.



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Dando um ponto final a esta prolixa escrita e ansioso pela Mostra Curta Audiovisual do ano que vem, devo destacar aquela obra mais estranha dentre os curtas que acompanhei: “Neosamba”, de Juliano Reina. Cravado nos vinte minutos permitidos pelo evento, trata-se de uma animação que seguiu marretando meus neurônios. Que imagens apresentadas foram essas? Poderíamos chamar estes personagens de “humanos” e “macacos”? Não há falas, apenas uma precisa trilha sonora que se divide em breves músicas instrumentais e ruídos. Os vinte minutos que poderiam parecer duas horas acabam soando como vinte minutos mesmo – cada segundo causa uma má digestão que na verdade faz bem à nossa saúde, pois leva-nos a pensar. O espectador aqui de forma nenhuma é passivo – da mesma forma que a sinopse do curta anuncia que sua narrativa está pautada nas conseqüências da atividade de “comer frutas vermelhas”.

Em um festival, felizmente, comemos todos os tipos de frutas: amarelas, verdes, pretas, brancas e vermelhas. A cada sessão novas surpresas. Em cada curta um diretor diferente, uma cidade diferente e uma proposta estética idem. Se apenas algumas cores acabam por agradar-nos, faz bem a má digestão das outras para que mantenhamos um olhar crítico perante nossa produção audiovisual de circuito, infelizmente, mais restrito. Parece-me, portanto, que uma das formas mais eficientes de analisar um panorama tão vasto de iniciativas audiovisuais é também em formato de árvore, tentando criar relações breves entre estes frutos vistos e, quem sabe (tomara!) nunca expelidos de nosso organismo.


(texto publicado originalmente na RUA - Revista Universitária do Audiovisual em novembro de 2008)