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quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Lasar Segall - Corpo presente

Entre os dias 23 de outubro e 21 de dezembro estava exposto dentro do simpático (e para mim até então desconhecido) espaço da Pinakotheke Cultural, em Botafogo, uma exposição retrospectiva do artista Lasar Segall.


Junto aos muito comentados nomes de Anita Malfatti e Tarsila do Amaral figura este homem não-brasileiro, dito como mais um "mestre do modernismo no Brasil" - seja lá o que isso for. Esta mostra de suas obras faz-se importante quando temos em mente que grande parte de sua produção está no museu que leva seu próprio nome, em São Paulo. Foi uma boa oportunidade de ter um contato direto com suas pinceladas, desenhos e gravuras, refletindo sobre os muito comentários lidos sobre sua obra e verificando se nossas considerações sobre suas reproduções batem com nossos pareceres perante os originais.


Não me surpreende, após ter caminhado por entre seus objetos artísticos, que Mário de Andrade e Rodrigo Naves prefiram sua dita fase "pré-Brasil". É notório lembrar que Segall esteve no Brasil com uma exposição já em 1913, quase dez anos antes da famigerada Semana de Arte Moderna e quatro antes da célebre mostra de Anita Malfatti. Como qualquer artista do dito expressionismo, as obras do lituano focam na construção da figura humana. Esta construção, porém, não dá-se da forma comumente atribuída à "tradição clássica": o espaço não é centralizado e as figuras não parecem dispostas como que sobre um palco italiano, subjugadas a uma ação. O que caracteriza esta primeira (muito boa) leva das obras de Segall é a distorção e fragmentação de suas formas e sua opção por escolher estranhos ângulos em seus enquadramentos (em especial nas gravuras). Os humanos plasticamente construídos parecem absortos em seus próprios pensamentos (ou sofrimentos, poderíamos dizer); eles aparecem para o espectador, não causando a impressão de serem espiados pelo buraco da fechadura.


Pergunto a mim mesmo se essa relação (óbvia) com a figura humana ("corpo presente") fez com que a curadoria atribuísse ao artista o termo "moderno clássico". Pensando dessa forma, toda a produção expressionista pode ser lida como clássica, devido ao enfoque nas figuras. Este tipo de consideração parece focar muito mais em uma análise meramente formal, do que efetivamente refletir sobre a intenção artística de um Lasar Segall em comparação a um, vá saber, Sandro Botticelli. Outra leitura possível deste termo é relacioná-lo com a famosa frase de Winckelmann sobre a arte grega: "nobre simplicidade e calma grandeza".


Mas aonde está essa calma? Por mais que opte pela representação de figuras aparentemente estáticas, considero esses humanos tudo, menos calmos. Essa ausência de calmaria é refletida nas próprias opções angulares do artista ou mesmo na própria impessoalidade com que ele preenche alguns de seus rostos, que ecoam as tais "máscaras africanas de Picasso".

Prosseguindo na exposição e, agora sim, pensando de forma semelhante à Mário de Andrade e Rodrigo Naves, ao deparar com a produção da "fase Brasil" de Segall levo um pequeno susto. As cores escuras de antes são substituídas por cores vivas. Pitadas de verde, amarelo e azul. Auto-retratos como mulato. Seu provável encantamento com a cor no/do Brasil faz com que suas obras percam em potência qualitativa, levando o artista a tentar construir essa perigosa idéia de brasilidade através de suas obras. Mestiços, lagartixas, bananais... Este é Segall tentando moldar o Brasil. Mais um olhar estrangeiro e, porque não, mais uma visão do exotismo.


Após sua instauração em nossa terra, encontramos mais pinturas em que a paisagem finalmente ganha destaque. Vemos bois, árvores, casas de campo. Também temos obras que dialogam com outros ditos artistas modernos, como Henry Moore, que voltam ao tema (mega) clássico da maternidade. Nesse sentido, talvez, possamos pensar Segall como um "moderno clássico". Em minha opinião, porém, de todos os aspectos de sua obra esse é o menos potente, sendo como que o outro lado de sua primeira fase na Europa. Se algo merece atenção dentro desse recorte de sua produção, esta é a forma como ele preenche suas figuras com cor, muitas vezes com aquarelas, mas em outros casos com o próprio óleo espalhado de forma que se assemelhe à textura aquarelada.


Tinha destaque nesta exposição a tal produção de retratos de Lucy, uma de suas alunas. Uma das obras, inclusive, estava há anos em um certo museu francês, tendo finalmente sido emprestada para esta mostra, retornando triunfalmente ao Brasil. Tal triunfo não é notado, francamente, em nenhuma dessas obras. O que parece interessante refletir é um possível diálogo entre Segall e um Degas, por exemplo, devido à forma como ambos fazem uma interessante curadoria de ângulos para enquadrar suas figuras. Alguns retratos de Lucy mais parecem com fotografias pintadas, devido ao recorte pictórico do artista.


Por fim, mas de nenhuma forma menos importante, esbarrei com duas obras que, sinceramente, me assustaram e fizeram valer a ida à exposição. Em sua tal "fase final" o artista produziu uma série de paisagens. As linhas expressionistas de sua fase inicial voltam aqui, porém fogem da figura humana e entram em choque com uma provável vontade de construiur uma paisagem, quiçá, brasileira. Enquanto isso, se não fossem por seus títulos que insistem em uma representação de algo externo à própria pintura, poderia dizer que Segall está realizando experiências com a planaridade da tela (Clement Greenberg na veia). Estas obras fazem com que me lembre mesmo das pouco comentadas paisagens de Piet Mondrian. Fazendo coro à qualidade destas obras, é preciso lembrar que elas não são pequenas, como boa parte da produção do artista; estas medem mais de um metro cada e, utilizando um termo de uma professora minha, "engolem" o espectador. Olhar estas pinturas foi uma daquelas experiências estéticas da surpresa e do silêncio. O que dizer perante essas "paisagens verticais"?


Com altos e baixos, como qualquer bom artista, Lasar Segall nos foi apresentado nessa pequena, porém minimamente interessante retrospectiva. Refletir criticamente sobre sua produção é, intrinsecamente, reavaliar os exaustivamente repetidos conceitos de modernidade e brasilidade. O que é ser moderno no Brasil? Melhor colocando, o que é ser moderno? Sem querer encontrar uma solução definitiva, julgo que Lasar Segall, através de larga produção artística, dá uma resposta possível para estas dúvidas.

4 comentários:

Roberto disse...

Excelente estréia, Raphael. Uma linguagem bacana e acessível para a arte plástica. Aguardo mais materiais.

www.robertomaxwell.com

Isabela Lobo disse...

Tb não conheço esse espaço em Botafogo!! Me leva lá? :)
Adorei a definição "máscaras africanas de picasso"...hahaha... É sua ou estava na exposição?
A fase das bananas me lembrou a Tarsila do Amaral!! Acho que pelas cores, não sei...
O quadro das vaquinhas é interessante, mas achei bem deprimente!
O que me captou de verdade foi o último, do bambuzal! Ao menos me pareceu um bambuzal... era? Dá a impressão de um chuva caindo tb!
beijossssssssssss

Rogério Wolf disse...

Ola Raphael, obrigado pelos cometários no meu blog.
Eu sou de Campinas, moro em São Paulo. Tambem conheço uma pessoa que estuda na Unicamp e adora vitrines, chama-se Stela.
Gostei muito do seu blog tambem, vou etar sempre por aqui.
Amo artes plásticas.
Parabens

Rogério Wolf disse...

Temos uma amiga em comum...
Eu e a Sra Stela ja fizemos ate uma mini palestra juntos.
Como disse que mundão pequeno heim?
Abraço