Dois
grandes eventos de arte contemporânea que acontecem a cada dois anos.
Setecentos quilômetros de distância e quase dois meses de acontecimento
simultâneo. Visitar uma destas bienais era quase que um convite a prolongar a
viagem e entrar em contato com a urbanização e expografia de outra capital do
sul do Brasil. Em cada local um recorte temático diverso, inserido em espaços
institucionais igualmente variados.
O
presente texto, portanto, pretende lançar luz sobre estes dois diferentes modos
de se criar um discurso curatorial a partir da Bienal do Mercosul (10 de
setembro a 15 de novembro de 2011), realizada principalmente em Porto Alegre e
da Bienal Vento Sul, realizada em Curitiba (18 de setembro a 20 de novembro de
2011). Por fim, uma breve comparação entre as mesmas contribuirá com uma
reflexão sobre qual o lugar deste tipo de evento de grande porte em território
brasileiro.
Ensaios de geopoética
Com
curadoria de José Rocca, a 8ª Bienal do Mercosul bebia do conceito de
“geopolítica”, o transformando em “geopoética”, ou seja: da política
territorial e da forma como certo governo lida com seu espaço geográfico em
relação aos outros territórios para a transposição dessa alteridade sociocultural
para a arte, em “poética”. A pergunta que esta bienal realizada em Porto Alegre
lança era: como diferentes territórios podem viver juntos em um mundo que se
diz globalizado? Qual o limite entre o “global” e o “local”, em tempos de
capitalismo neoliberal? É possível falarmos sobre identidades nacionais dentro
da América Latina, território um dia colônia e que até hoje lida com as chagas
deste passado de domínio e sangue? Qual o limite entre documento e narrativa dentro
da construção de um território através do desenho (mapa) e da construção de uma
identidade através da cultura?
Essas
questões propostas se encontram articuladas com questionamentos recentes dados
tanto no campo dos estudos curatoriais, quanto, por exemplo, no campo da
história da arte. Tendo em mente a ausência do enfoque em aspectos geográficos,
esse conceito curatorial já ecoava na 27ª Bienal Internacional de São Paulo, de
2006, com assinatura de Lisette Lagnado e baseada no texto de Roland Barthes,
“Como viver junto”. No mesmo ano, James Elkins publicava o livro “Is art
history global?”, onde pergunta sobre como uma disciplina europeia, sempre permeada
de discursos hegemônicos e tendenciosos, poderia se desenvolver em ambientes
“não-ocidentais” (onde “ocidental” é termo relativo ao produzido na Europa
ocidental e nos Estados Unidos). Qual o limite entre western art e world art?
Esta
temática da poética-política do território desembocou em muitos trabalhos
expostos que lidavam com dois grandes símbolos culturais: bandeiras e mapas. No
galpão principal da bienal, no Cais do Porto da cidade de Porto Alegre,
diversos artistas se apropriaram e recodificaram estes objetos de formas
orgânicas incertas ou frutos de um desenho industrial pós-Bauhaus. De todo
modo, independente das opções poéticas feitas, ficções foram criadas junto ao
caráter ficcional intrínseco dos mesmos. Os esquemas gráficos são retrabalhados
e os significados mentais ali projetados são alterados de dentro para fora.

Mayana
Redin sobrepunha mapas de diferentes lugares em sua série “Geografia de
encontros”; e se, um dia, Mônaco e Rússia estivessem sobrepostos? Já Luis
Romero faz uma instalação em que preserva apenas estrelas das bandeiras
nacionais vigentes. No lugar das cores, o preto-e-branco; no lugar de um atlas
político, uma constelação de culturas dadas através do contraste entre figura e
fundo. Havia também um grande número de vídeos que, importante frisar, não eram
enfadonhos e se integravam ao todo da exposição devido à sua curta duração. Um
bom exemplo que aponta também para a opção de não se expor apenas obras de
artistas latino-americanos era “Drinking song”, de Donna Conlon e Jonathan
Harker. O hino norte-americano era ensaiado a partir do abrir e amassar de
garrafas e latas de cerveja do Panamá. O colonialismo é revisto a partir do
consumo e da deterioração sugerida pelo álcool.

O
próprio modo como a Bienal do Mercosul pensou seus espaços expositivos se
insere na sua reflexão sobre a relação entre lugar e arte. Enquanto no Cais do
Porto havia uma exposição maior que poderia facilmente ser rotulada como a
“principal”, o evento se desmembrava pela cidade. Dos holofotes dos refletores
do cubo branco para a luz natural do dia e a confusão entrópica entre arte
contemporânea e espaços citadinos. Esse era o mote de “Cidade não vista”, uma
série de intervenções urbanas sobre coordenação de Cauê Alves. Os projetos
expostos e dados à participação do público por diversas vezes passavam,
literalmente, “não vistos” devido ao modo como eram absorvidos pela cidade, tal
qual um camaleão.
Dentro
do tradicional Museu de Arte do Rio Grande do Sul, por exemplo, a curadora
Aracy Amaral estabeleceu diálogos entre o artista Pedro Weingartner, expoente
da pintura do século XIX produzida em Porto Alegre e um videoartista como Cao
Guimarães, que em seu vídeo exibido reflete sobre o caráter árido de trechos da
paisagem urbana. “Além fronteiras” era o nome desta mostra e este título pode
ser interpretado como norteador do evento como um todo, já que José Rocca fez
questão de incluir (e de frisar em seu catálogo) a importância de se realizar
itinerâncias por cidades próximas à capital durante a bienal. Trata-se de um
esforço pela ampliação do público do evento e da reconfiguração da relação
entre metrópole e interior do estado.
Além da crise
Enquanto
isso, em Curitiba, sob a assinatura curatorial de Alfons Hug e Ticio Escobar,
se sucedia a 6ª Bienal de Curitiba (VentoSul). O tema desta era a crise, ou
melhor dizendo, “além da crise”. Mas sobre qual crise os curadores estão a se
referir? Segundo o texto de Ticiano Escobar que abre o catálogo do evento,
poderíamos pensar a palavra no plural: “arte e crise I: a melancolia crítica”;
“arte e crise II: a crise da representação”; “mundo e crise: tempos de crise”;
“crise e crítica”; “bienal e crise”; e “os artistas perante a crise”.
A
crítica, a bienal, a idéia de representação e o mundo não são elementos
constantemente em crise? Em algum momento da história da humanidade o conceito
de crise não foi acionado? Existe a possibilidade do ser humano existir sem este?
Essas instâncias institucionais citadas pela curadoria já tiveram algum momento
de calmaria desde seu nascimento e problematização ainda dentro da tradição
clássica? Dessa indagação surge outra: o que seria, então, produzir arte “além
da crise”? Como problematizar esta posição sugerida pela curadoria de modo
visual e poético?
Uma
das respostas dadas pela curadoria veio com a organização de uma grande mostra
de pintura contemporânea assinada pelo curador Alberto Saraiva e que teve como
sede a Casa Andrade Muricy. Nesta foram selecionados artistas de diferentes
gerações e origens que, consequentemente, possuem pesquisas pictóricas que
bebem de questões diversas: do lugar do abstracionismo na arte contemporânea a
uma ampliação do campo da pintura para o vídeo e para o desenho. Se a reunião
desses trabalhos se mostra valorosa e importante, o seu mote, ou seja, uma
possível “crise da representação”, parece superficial e pouco problematizada,
assim como as corriqueiras abordagens historiográficas de que, por exemplo,
durante a década de 1980 constataríamos um “retorno da pintura”.
No
Museu Oscar Niemeyer, cartão postal de Curitiba e base para a maior parte da
bienal, a semelhança formal de tópicos geopolíticos constatada na Bienal do
Mercosul dá lugar a uma variedade de propostas e percursos de interpretação. Se
fossemos aproximar o observado de uma das possíveis crises sugeridas por
Escobar, talvez fosse mais adequado pensar em “bienal e crise”, ou seja, esse
percurso museográfico mostra claramente ao espectador que a tentativa de
abarcar tantos artistas sobre o mesmo conceito pode ser frouxa. Trata-se de uma
tentativa de “domesticar”, “musealizar” obras um tanto quanto díspares que, por
sua vez, como um possível e interessante contraponto ao visto em Porto Alegre,
também não dialogam pelo contraste e pela diferença.

No
meio dos diversos estímulos visuais encontrados num evento desse porte, dois
artistas chamaram a atenção através de vídeos. Alejandro Paz apresentou um
vídeo intitulado “Faja”. Nele, uma mulher indígena anda-caminha-corre por vinte
e nove minutos sobre uma esteira. Sem som, sem edição, este trabalho é um
verdadeiro soco na cara ao trazer à tona o problemático lugar dado aos índios
na Guatemala, país de origem do artista. Responsáveis por tradições culturais
no país, foram absorvidos pelo mundo da tecnologia digital e agora são
enxergados dentro do mecanismo do capital como mão-de-obra barata. A argentina
Liliana Porter, no lugar de um audiovisual político e direto, produz
curtíssimas ficções com objetos banais. A crueldade anterior aqui se estende
para o cotidiano. Brinquedos de criança que imitam um exército deslizam sobre a
tinta vermelha. “Moon river” e Audrey Hepburn soam ao fundo. A cultura pop, a guerra e a ludicidade se
misturam. Seriam estes dois artistas boas respostas a alguma “crise”? Talvez
sim, mas não apenas.

Na
ausência de itinerâncias pelo estado do Paraná, a curadoria ocupou mais espaços
da própria capital. Museus e bibliotecas receberam pequenas partes das mostras
principais, ao passo que performances e intervenções urbanas foram realizadas –
quando, importante registrar, eram encontradas pelo público e não haviam sido
desmontadas sem grandes explicações ou já encerradas devido ao caráter efêmero da
arte contemporânea.
Bienais e o “Sul”
Diferenças
conceituais e expográficas à parte, comum às duas bienais está a palavra “sul”
em seu nome. Em Porto Alegre, um evento que visa refletir sobre o lugar das
bienais na América do Sul e que seleciona, não de modo exclusivo, mas de forma
majoritária, artistas do Mercosul. Já em Curitiba, a Bienal VentoSul, que
reforça o fato de se realizar numa importante capital do “Sul do Brasil”,
também inserida dentro da região geográfica intitulada por Cone Sul.
Esse
dado identitário sulista não parece algo impensado; muito pelo contrário, há
uma consciência de que ambos os eventos não se sucedem na região tida como
culturalmente mais efervescente do Brasil, a saber, o sudeste, em especial as
cidades do Rio de Janeiro e São Paulo, onde ocorre a Bienal Internacional há
mais de cinquenta anos. Temos aqui, portanto, uma inquietação por inserir este
espaço geográfico dentro do circuito expositivo da arte contemporânea no
Brasil, levando um público especializado para estes e, mais do que isso, o
próprio turismo. A proposta é de modificar a relação entre “centro” e
“periferia”, mostrando ao público que estas concepções no mundo contemporâneo
podem e tendem a ser temporárias, assim como miragens.
Com
este aparente propósito, parece coerente a problematização geopoética sugerida
pela 8ª Bienal do Mercosul. Através deste conceito curatorial, o tópico é
destrinchado com a existência do evento em si e, de modo duplo, com a temática
das obras expostas. Por outro lado, a 6ª Bienal de Curitiba não apresenta tal
imbricação de conceitos e opta por um tema, a “crise”, que, ao mesmo tempo em
que parece “global”, transparece certa vagueza e falta de consistência.
Da
enciclopédia de bandeiras e mapas para a exposição da crise que mais se
assemelha a um gabinete de curiosidades. Juízos críticos à parte, ambas as
exposições cumprem seu papel de estabelecerem um panorama do que há de melhor
(e às vezes pior) dentro da arte produzida e, mais do que isso,
institucionalizada no mundo contemporâneo. Cabe a todos nós, ao mesmo tempo
espectadores e críticos de arte e da vida, julgar estes objetos artísticos e
estes museus e ruas que se transformam em labirintos expositivos. A cada dois
anos, felizmente, o “sul do Brasil” vira nosso destino, nosso norte e nossa
rosa-dos-ventos é embaralhada por este fenômeno singular que é a arte.
(texto premiado com menção honrosa no AICA Incentive Prize for Young Critics 2012, organizado pela International Association of Critics of Art, em Paris)